Nossa Mulher Positiva é a Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, que tem como missão transformar a indústria da moda, para que ela seja mais justa e sustentável. O Instituto trabalha no mundo todo, estimulando o potencial de organizações sociais, marcas e inovadores em gerar impacto. Eles acreditam que a moda pode ser uma força para o bem, gerando condições de trabalho dignas para os milhões trabalhadores; sendo mais transparente sobre como e onde as roupas foram produzidas e repensando seus produtos e modelos de negócios.

Como começou a sua carreira?

Estudei administração de empresas na FEA-USP e logo nos primeiros anos da faculdade, percebi que gostaria de ter uma carreira ligada a questões de sustentabilidade, alinhando o lado profissional aos meus valores. Passei então a me envolver em projetos da universidade e a estudar o assunto.

Em 2001, consegui um estágio na Natura. Lá trabalhei um ano com Marketing e depois consegui fazer a tão desejada migração para a área de sustentabilidade, onde fui efetivada e fiquei até 2005. Foi um período de muito aprendizado, por todo o pioneirismo da empresa no tema.

Quando sai da Natura, queria ter uma visão mais ampla de como outras empresas e setores trabalhavam estes temas, e acabei indo trabalhar no Instituto Ethos, onde fiquei por 5 anos.

Em 2010, voltei para o setor privado e fui trabalhar na empresa C&A, onde liderei a área de sustentabilidade e também a área de Sustainable Supply Chain, que cuida do compliance de toda a cadeia de fornecimento. Lá tive a oportunidade de conhecer muito sobre os desafios sociais e ambientais da indústria da moda e implementar uma agenda estratégica de sustentabilidade.

Finalmente, em 2015, fui convidada a assumir a Diretoria Executiva do Instituto C&A e liderar um processo de mudança organizacional profundo, reposicionando a organização para o trabalho de transformação da indústria da moda.

 Como é formatado o modelo de negócios do Instituto C&A? 

Somos um instituto corporativo que tem como missão transformar a indústria da moda, para que ela seja mais justa e sustentável. São muitos os desafios desta indústria e nossa missão é inspirar a crença de que a mudança é possível e apoiar iniciativas que farão essa mudança acontecer. Trabalhamos no mundo todo com organizações sociais, marcas e inovadores, estimulando o potencial de cada um de criar impacto.  Oferecemos a eles suporte técnico e financeiro e trabalhamos sempre de forma colaborativa para acelerar seu impacto. Acreditamos que a moda possa ser uma força para o bem, gerando condições de trabalho dignas para os milhões de trabalhadores que dependem desta indústria, sendo mais transparente sobre como e onde as roupas foram produzidas e repensando seus produtos e modelos de negócios.

Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Certamente foi o momento de minha chegada ao Instituto C&A e o desafio de liderar uma mudança organizacional profunda.

O Instituto C&A já tinha 25 anos de história, com um trabalho muito consistente na área de Educação. Tinha parcerias com muitos atores relevantes no campo e uma equipe super engajada.

O desafio que eu tinha nas mãos era integrar o Instituto C&A à C&A Foundation, organização global recém criada, que passaria a coordenar todo o trabalho de investimento social que, até então, era feito de forma descentralizada nas várias geografias. Com esta mudança, nosso foco de atuação passaria a ser outro. Deixaríamos de trabalhar em educação para trabalhar com a indústria da moda, visando sua transformação em direção à sustentabilidade. Com isto, mudamos nossa missão, nossa visão, nossa identidade, nossa cultura e nossos programas. Deixávamos também de ter uma atuação apenas Brasil, nos conectando agora com o trabalho da C&A Foundation no mundo todo.

Ao mesmo tempo, tinha o desafio de fazer um phase out responsável, que honrasse toda a história construída em 25 anos na Educação. Criamos um projeto chamado legado, para que esta saída fosse gradual. Tivemos 3 anos para concluir esta transição. E, neste período, nos dedicamos a fortalecer nossos parceiros e apoiá-los, para que seguissem ainda mais fortes com seu trabalho. Também nos dedicamos a avaliar nossos resultados e compartilhar com a sociedade todo o conhecimento e aprendizados acumulados.

Foi um momento de muita mudança também para a equipe, que foi pouco a pouco se adaptando às mudanças, à chegada de novos colegas e à partida de outros. Foi um processo gradual, feito com muito respeito à história do Instituto C&A e às pessoas que a construíram.

Os dois primeiros anos foram bastante desafiadores, com muitas emoções e aprendizados a cada dia. Me ajudou muito o fato de que àquela época eu estava escrevendo minha tese de Mestrado e pude registrar lá tudo o que aprendi, as minhas reflexões e dificuldades na liderança deste processo. Olhando agora para trás, fico muito grata pela oportunidade de ter participado disso tudo.  Aprendi muito sobre gestão de pessoas, mudança organizacional, e principalmente sobre mim mesma nesta jornada.

Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora. 

Como tenho paixão pelo que faço, preciso diariamente trabalhar a minha disciplina para não deixar a vida pessoal e familiar em segundo plano. Por isto, passei a colocar a atividade física na minha rotina. De segunda a quinta, busco me exercitar com Pilates e natação. Vou à noite, após as 20h ou 21h, quando já cumpri toda a agenda do dia e da casa, e tento não faltar com este compromisso comigo mesma. Este ano também resolvi que pegaria meu filho na escola todos os dias. Esta rotina tem me ajudado neste equilíbrio, pois abro um espaço importante de qualidade para estar com ele, ouvir sobre a escola, jantarmos juntos. Tenho bastante apoio em casa, do meu marido e de toda a família.

 Qual o seu maior sonho?

Meu maior sonho é viver numa sociedade mais justa, em que todas as pessoas possam viver com dignidade. Acredito que para isto a nossa sociedade precise rever seus valores, mais do que tudo. É este sonho que me move diariamente, no meu trabalho e nas minhas escolhas de vida.

Qual a sua maior conquista?

Vejo cada passo da minha carreira e dos meus estudos como grandes conquistas, pois todos eles contribuíram para que eu seja quem sou hoje. Talvez eu destacaria a conclusão do meu Mestrado em 2016. Foram dois anos de estudos intensos, que eu tinha que conciliar com todo o trabalho de mudança organizacional no Instituto C&A e com a maternidade. Meu filho tinha menos de 1 ano quando comecei o programa de mestrado. Mas, tive muito apoio para que eu pudesse também encontrar tempo para o estudos. E fiz questão de comemorar muito com a família toda esta conquista.

Livro, filme e mulher que admira

Livro: Terminei de ler agora “21 lições para o século XXI”, Yuval Noah Harari e gostei muito. Ele traz reflexões valiosíssimas para entendermos nossa sociedade, as mudanças que já estamos vivendo e os desafios que nos esperam.

Filme: “O Filho da Noiva”, um filme argentino do diretor Juan José Campanella. Sempre me emociono quando assisto.

Mulher que admiro: Djamila Ribeiro. Tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente em um workshop que fizemos no Instituto C&A no ano passado. Desde então, venho acompanhando mais de perto o trabalho dela, na luta pelos direitos das mulheres e contra o racismo.  Djamila é um exemplo de coragem e inspiração diária para mim.