Nossa Mulher Positiva de hoje é a Gabriela Viana, Diretora de Marketing para a América Latina da Adobe. Na entrevista, a executiva contou detalhes sobre sua trajetória no mercado de marketing digital – segmento em que atua há mais de 16 anos – e como faz para conciliar a vida pessoal e profissional.

  1. Como começou a sua carreira?

Sempre gostei muito de ler – e também de escrever.  Escolhi meu curso superior sonhando ser redatora publicitária. A publicidade era – nesse momento – o equivalente ao que a internet é hoje, em termos de relevância e atratividade. Admirava muito o trabalho de grandes publicitários brasileiros e apesar de ter chegado a trabalhar como redatora em duas pequenas agências, o marketing “me escolheu” ainda nos primeiros anos de carreira – e chegou junto com a tecnologia em minha vida, pois já era um marketing associado com base de dados. Um dos meus primeiros empregos formais foi em uma empresa de TV/Editora, na qual eu trabalhava com a base de assinantes. Em 2000, quando fui trabalhar em uma Startup, eu já tinha uma ligação forte com tecnologia e já tinha feito uma primeira campanha para Internet.

  1. A Adobe é um case de sucesso no mercado digital. Como é formatado o modelo de negócios?

A Adobe é reconhecida como um case de sucesso em ter reinventado seu próprio negócio. Passamos de empresa de software tradicional, que era focada em criação e desenvolvimento de conteúdo, para uma empresa que tem tecnologia robusta e que pode apoiar grandes marcas em sua transformação digital. Desde a digitalização de documentos, assinaturas digitais, passando por criação de qualquer tipo de conteúdo – vídeo, web, apps – até a entrega, mensuração e otimização deste conteúdo – com tecnologia reconhecidamente superior em web analytics, otimização de compra de mídia, gerenciamento de conteúdo, segmentação e muito mais. Temos uma ampla gama de produtos, em um modelo “Software as a Service”, apoiados por Inteligência Artificial. Aliás, também temos uma visão bastante consistente e na qual acredito muito, de como oferecer AI ao nosso mercado de clientes. O Sensei (nossa inteligência artificial) opera em todas as ferramentas e não é um produto distinto. Ao se tornar cliente da Adobe, você terá AI operando no “background”, aprendendo e otimizando sua operação.

  1. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Há alguns bons anos atrás eu realmente cheguei a questionar minha profissão e cheguei a montar o business case de um restaurante – vale dizer que eu não sei fritar um ovo – e tive a coragem, a sorte e o privilégio de poder encarar uma startup de tecnologia pela segunda vez e de me apaixonar novamente pelo que eu faço. Lembro com carinho imenso do meu time dessa época, uma galera que, sem saber, me resgatou. Eu aprendi que, para mim, é muito importante sentir que posso, de verdade, contribuir e fazer a diferença. Ou seja, se eu tiver uma boa posição, boa remuneração, mas for dispensável naquela organização, não será realmente o suficiente, ao contrário, me faz bastante mal. Desde então, tenho sido bastante feliz, independente de obstáculos. Realmente o autoconhecimento é uma dádiva. Vai soar clichê, mas foi ótimo ter uma crise, pois tenho novos critérios de escolha de desafios.  Sou muito realizada hoje na Adobe, sinto que apesar de sermos um time, individualmente somos importantes, valorizados e essenciais para o sucesso do nosso negócio. O mundo da tecnologia tem desenvolvido um discurso maléfico, de exclusão do componente humano. É o máximo trabalhar em um ícone do Vale do Silício que apesar de desenvolver tecnologia de ponta, tem um foco real nas pessoas, nos clientes e na ética.

  1. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa. 

Sou uma pessoa inquieta, que não desiste e que consegue conciliar a vida pessoal e profissional de forma equilibrada, sem sacrifícios. Sempre fiz questão de comunicar para minhas filhas que minha profissão me faz feliz – e sempre falei sobre as viagens sem fazer drama ou como se fosse algo ruim. Não me arrependo ou me sinto em nenhuma medida tendo perdido nada, escolhendo equilibrar diferentes lados que são importantes para mim. Eu sempre tive muita ajuda e sou extremamente grata às pessoas que me permitiram ter minha carreira sem sentir que eu estava prejudicando minhas filhas ou minha vida pessoal. Porém, é muito importante frisar que faço parte de uma parcela pequena de mulheres que podem se dar ao luxo de contar a ajuda que tive. Há um contingente de mães que têm de fazer o mesmo, mas sem o suporte e a condição financeira que precisam. Uma grande população de mulheres que – para sustentar a família – se desgastam em um transporte público de baixa qualidade, deixam seus filhos em creches ou escolas também de baixa qualidade e tem pouco acesso à saúde ou apoio.

Também adoraria ver os homens respondendo como conciliam carreira e paternidade. O fato de que não essa pergunta não seja feita a eles ilustra que a criação de filhos sobrecarrega de forma desigual as mulheres.

  1. Qual o seu maior sonho?

Meu maior sonho é ver meu bairro limpo! O país unido, as pessoas usando seu lado mais honesto, humano e generoso, a educação e saúde sendo prioridades, um país seguro. Eu realmente tenho o sonho de que minhas filhas possam ver um Brasil diferente, melhor. Eu sou otimista por natureza e acho que muitas coisas melhoraram desde que eu me entendo por gente. Mas tantas outras precisam evoluir e eu sonho e faço minha parte.

  1. Qual a sua maior conquista?

Considero que minha maior conquista tem sido persistir. Eu acredito fielmente em batalhar por condições de trabalho flexíveis para todos, remuneração equivalente e em buscar alternativas, sempre em oposição a achar que trabalhar é um problema, peso ou culpa. Infelizmente ainda é comum que frente aos enormes obstáculos – seja de conciliar trabalho com a vinda dos filhos ou a constatação de que colegas homens avançam mais rápido na carreira ou quando a remuneração e reconhecimento não parecem compensar – muitas mulheres que investiram na sua própria formação, acabam abandonando o mercado de trabalho. Não há nenhum demérito nisso, mas é uma perda importante, para o mercado e para o país. Quando uma mulher pode tomar uma decisão assim, significa colocar sua autonomia financeira sob responsabilidade de uma outra pessoa. E não acho que a lei nos proteja suficientemente bem nesses casos -apesar da importância incalculável de cuidar da casa e filhos. Nossa cultura considera esse trabalho relevante, mas não o pelo o que ele vale. Voltando à conquista, o amor é elemento que se comporta de forma semelhante em diferentes contextos. Amar é um processo, uma decisão contínua e algo que depende largamente do seu investimento. Eu conquisto minha relação positiva com o trabalho investindo nessa relação – e garantindo que junto dela cabe meu investimento mais precioso: minha vida pessoal e minha família.

  1. Livro, filme e mulher que admira.

Admiro muito a Rachel Maia, CEO da Lacoste, e me senti realizada conhecendo-a pessoalmente este ano. Meus autores favoritos são: Ian McEwan, Arundathi Roy, João Ubaldo Ribeiro e Lionel Shriver. Se eu tiver que escolher um livro só, escolho o “Deus das Pequenas Coisas”, da Arundathi Roy, “A Praia”, do McEwan, ou “Amor nos tempos do Cólera”, do Garcia Marquez (e já não consegui ficar em um só!). Eu gostei muito da adaptação do Atonement (Desejo e Reparação) do McEwan para o cinema e, mais recente, amei o filme “A Festa”, com a maravilhosa Kristin Davis.