Nossa Mulher Positiva é Cynthia Betti, diretora-executiva da ONG Plan International Brasil. Cynthia nos conta como fez uma transição de carreira do mercado corporativo em empresas do setor químico, farmacêutico e de seguros para se juntar à causa das meninas no Brasil.

1) Como funciona o trabalho da Plan Internacional?

Fundada em 1937, a Plan International é uma organização humanitária e de desenvolvimento não governamental e sem fins lucrativos, que promove os direitos das crianças e a igualdade para as meninas. No Brasil desde 1997, implementa projetos no Maranhão, Piauí, Bahia e São Paulo. Nossas estratégias de incidência política e mobilização social pautam as demandas das meninas em novos espaços do Legislativo, Executivo e na sociedade civil, alcançando todo o território nacional.

2) Como começou a sua carreira?

Após atuar por 30 anos no setor corporativo em empresas do setor químico, farmacêutico e de seguros, tendo minha última posição como diretora estatutária de uma empresa espanhola, resolvi fazer uma transição de carreira em 2018. Foi quando me juntei à equipe da Plan International Brasil como responsável por sua operação no país. Sou formada em Pedagogia pela USP, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, com especializações em Gestão Avançada pela Fundação Dom Cabral/Insead e pelo IESE/Universidad de Navarra.

3) Como vocês auxiliam diretamente estas meninas?

Por meio do desenvolvimento de programas e projetos com o objetivo de capacitar e empoderar crianças, adolescentes e suas comunidades, para que adquiram competências e habilidades que os ajudem a transformar suas realidades. Queremos crianças e jovens protagonistas de suas próprias histórias e comunidades conduzindo seus próprios desenvolvimentos. Para que isso aconteça, trabalhamos dentro de três eixos:

PROGREDIR – em que crianças e adolescentes, especialmente meninas e suas comunidades, possam atuar para prevenir a violência baseada em gênero.

LIDERAR – para que meninas tenham suas vozes mais fortes e possam atuar como agentes de mudança para a promoção e defesa dos seus direitos.

DECIDIR – possibilitar que meninas e jovens mulheres  se organizem e tenham controle sobre suas vidas e seus corpos, tomando decisões sobre suas identidades, relações, se desejam engravidar e quando.

Além disso, temos a publicação de diversos estudos importantes que trazem dados fundamentais sobre a condição do desenvolvimento das crianças e das meninas no Brasil e sobre o casamento infantil.

4) Qual o seu objetivo com o recém lançado serviço Meninas Líderes?

Propiciar um ponto de encontro digital para que meninas e jovens mulheres de todo o país discutam sobre igualdade de gênero, compartilhem experiências, troquem conhecimento. A plataforma está dividida em várias áreas. Na “Fala Menina”, jornalistas, influenciadoras, blogueiras, meninas participantes dos projetos da Plan e usuárias da plataforma vão produzir conteúdo sobre empoderamento das meninas, igualdade de gênero, direitos, etc. A aba “Conversar” vai concentrar os debates. Será organizada em blocos, com conversas sobre temas de interesse e um espaço para desabafos e pedidos de ajuda sobre temas delicados como violência, assédio, escola e família.

Já no canal “Por aí”, as meninas vão trocar dicas de filmes, livros, cursos e músicas. Na “Agenda” será possível descobrir eventos relacionados à temática das meninas separados por período e por estado. A plataforma tem ainda uma área dedicada a editais, com projetos e iniciativas que podem interessar a meninas e mulheres.

Na área fechada da plataforma, disponível para todas as meninas cadastradas, está também o espaço dedicado à campanha #MeninasOcupam, que celebra o Dia Internacional da Menina, em 11 de outubro, e tem eventos de ocupação de espaços políticos e da sociedade civil por um dia. Pela plataforma será possível ver um passo a passo de como realizar uma ocupação, baixar material de apoio, agendar ocupações e acompanhar uma lista de iniciativas que já aconteceram ou acontecerão.

Em breve, a plataforma também terá integração com a MAIA (Minha Amiga Inteligência Artificial), um bot que conversa com as meninas e jovens mulheres sobre relacionamento abusivo de uma forma leve e descontraída. A iniciativa faz parte da campanha #NamoroLegal, criada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Microsoft para alertar sobre estágios de um relacionamento abusivo e evitar chegar a agressões físicas.

5) Como imaginam conseguir ganhar escala?

Acreditamos que a escala acontecerá à medida que as meninas começarem a acessar o portal e convidarem suas amigas para fazerem parte de um lindo movimento que crescerá exponencialmente. Estamos muito felizes com o lançamento da plataforma Meninas Líderes, um ambiente virtual para unir meninas de todo o Brasil para que, juntas, elas se fortaleçam para serem líderes locais.

6) Qual o seu maior sonho?

Em um país com tamanha desigualdade social, meu grande sonho é que o trabalho que realizamos na Plan torne-se irrelevante, ou seja, que consigamos atingir nosso objetivo de dar voz e condições para que crianças, adolescentes e meninas em especial, tenham seus direitos garantidos e suas vozes ouvidas.

7) Qual foi o seu maior desafio?

Tem sido manter o equilíbrio emocional ao ter contato com uma realidade tão difícil e dura de comunidades, invisíveis para a maioria das pessoas com quem convivo. Sair da minha bolha foi essencial, mas teve seu preço.

8) Você acha que hoje o planejamento familiar é um dos problemas mais graves para o desenvolvimento do país?

O Brasil é o quarto país no ranking de casamentos infantis em números absolutos e o casamento vem muitas vezes acompanhado de uma gravidez precoce que muda completamente a vida de uma menina. Falar sobre educação sexual é essencial, dar informações e condições para que estas meninas e jovens tomem decisões a respeito de suas próprias vidas, ampliando suas consciências e escolhas é nosso desafio. Isso significa também trabalhar com as famílias e comunidades para derrubar estereótipos e questionar costumes.

9 ) Livro, filme e mulher que admira

Livro – A arte da imperfeição (Brené Brown)

Filme – Central do Brasil

Mulher – Maria do Carmo, minha mãe, que faleceu aos 55 anos em consequência de um câncer. Um exemplo de mãe, esposa e profissional.