Beatriz Pantaleão, 48 anos, é diretora-executiva da Fundação Gol de Letra. Em 1998, junto com Raí, Leonardo e Cristina Bellíssimo, instituiu a Fundação Gol de Letra, que hoje é referência em educação e esporte no país, tendo recebido vários prêmios de reconhecimento. Formada em História pela PUC-Rio, Beatriz morou em diversas cidades do mundo, é fluente em cinco línguas e ministra palestras em eventos, universidades e escolas. Praticante de esportes como beach tênis e ciclismo, ela consegue ir além da paixão esportiva: acredita no potencial do esporte e da educação como ferramentas para transformar olhares e contribuir com um país mais justo.

  1. Como começou a sua carreira?

Na verdade, minha carreira no Terceiro Setor começou com um susto. Na época que instituímos a Fundação Gol de Letra, eu estava casada com o Leonardo e tudo surgiu de um sonho e bate-papos entre ele e o Raí.  Eu e a Cristina, ex-mulher do Raí, gostamos da ideia e abraçamos a causa com eles.

Nos primeiros anos de Gol de Letra, morava fora do país e participava de maneira muito pontual. Quando voltei ao Brasil, em 2009, passei a integrar a Gol de Letra de “corpo e alma”.  Com uma formação em História, fui construindo minha carreira administrativa trabalhando com bom senso, dedicação e carinho pelo projeto. Hoje, a Gol de Letra é como se fosse um quarto filho na minha vida.

  1. Como é formatado o modelo de negócios da Fundação Gol de Letra? 

Apesar de sermos uma ONG, ou seja, Organização não Governamental e sem fins lucrativos, funcionamos exatamente como uma empresa, mas sem lucro. Hoje temos 129 funcionários entre Rio de Janeiro e São Paulo, temos auditoria anual, prestamos conta para os Conselhos do Rio de Janeiro e São Paulo, para o Ministério Público, para parceiros, temos planejamento estratégico, objetivo e metas a cumprir. Atualmente, nossa captação é bem diversificada: participamos de Leis de Incentivo Federal, Estadual e Municipal, de editais de empresas privadas e contamos com doações de pessoas físicas que compartilham dos nossos valores e participam do nosso Programa de Sócios Titulares.

Ao longo de 20 anos de atuação, nos tornamos referência mundial no apoio ao desenvolvimento social de crianças em situação de risco social e beneficiamos mais de 15 mil jovens, adolescentes e crianças com a metodologia Gol de Letra, que trabalha com os conceitos de educação integral e esporte educacional e de participação, baseados em três pilares: aprender (ampliação do repertório cultural, esportivo e educacional), conviver (desenvolvimento de valores e regras de convivência) e multiplicar (formação de multiplicadores de conhecimentos e atitudes). Como diretora-executiva da fundação, fico na sede do Rio de Janeiro e acompanho muito de perto esse trabalho no dia a dia. É muito gratificante ver os resultados e o crescimento que tivemos nos últimos anos por meio de iniciativas como essas.

  1. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Acho até difícil especificar apenas um momento.  Trabalhar com projeto social é uma aventura que mistura um grande prazer e realização e uma onda de dificuldades e frustrações. Mas acredito que um dos momentos mais complicados foi quando fechamos uma das nossas unidades, situada na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro.  Primeiro por uma questão emocional, por se tratar da minha cidade natal, e depois porque já tínhamos uma dimensão robusta, com cerca de 600 atendimentos e uma equipe de 40 funcionários.  Isso ocorreu em 2007, tínhamos um único investidor que declinou e, de uma hora para outra, fomos obrigados a fechar a unidade. A partir daí aprendemos a diversificar nossa captação para ter menos risco de que isso voltasse a acontecer.

  1. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora?

Costumo dizer que trabalho 24 horas por dia. Mesmo nos momentos da minha vida pessoal estou captando, buscando recursos e oportunidades para a Gol de Letra.  Sempre acabo envolvendo todo mundo!

Nossa agência de design, a Refinaria Design, por exemplo, que realiza um trabalho “pro bono” há 10 anos, pertence às minhas amigas Valerie e Rafaela. Meu professor de beach tênis, Adão Chagas, já realizou oficinas na Gol de Letra.  Tenho vários amigos e familiares que são sócios e contribuem mensalmente.

Meus filhos estão sempre ao meu lado, participaram desde o início, viram a Gol de Letra crescer, compartilharam comigo momentos difíceis e momentos de enorme prazer.  Hoje são meus maiores aliados nessa luta, me ajudam, divulgam, captam junto comigo e se orgulham das nossas conquistas.

Uma vez assisti a uma palestra sobre Terceiro Setor, da Viviane Senna, isso bem no início.  Me lembro dela nos alertar que uma vez que estivéssemos dentro dessa área, seria difícil voltar atrás.  E isso realmente acontece.

  1. Qual o seu maior sonho?

Este ano a Gol de Letra está fazendo 20 anos, e confesso que há 20 anos meu sonho era que o trabalho da Fundação já não fosse essencial para o nosso país nos dias de hoje, que já tivéssemos alcançado uma educação pública de qualidade e abrangente.

Mas, infelizmente, apesar de já termos progredido muito, ainda estamos muito longe de uma educação ideal.  Acredito que a Gol de Letra contribua, e muito, para a formação de nossas crianças, assim como para o desenvolvimento de novas tecnologias sociais.  Mas, para atingir de maneira capilar e abrangente a população, o poder público é fundamental, entretanto ainda não vejo um real interesse de nossos governantes em investir com seriedade na Educação. E, definitivamente, um país só cresce com o ensino para todos e de qualidade.  Meu sonho é que nossos políticos acordem e se deem conta disso.

  1. Qual a sua maior conquista?

Posso dizer que tenho muitas conquistas. Ao longo desses 20 anos de Gol de Letra, já conseguimos inserir muitos jovens no mercado de trabalho, assim como na universidade.  Cada vez que um jovem compartilha comigo essas conquistas meu olho “enche d’agua” (ainda hoje, enche d’agua) e me dá uma sensação muito nítida de “dever cumprido”. O desejo é de contribuir para continuar melhorando a qualidade de vida dessas pessoas.

Quando consigo estimular funcionários da Gol de Letra a voltarem a estudar também é bastante gratificante, e isso já aconteceu algumas vezes. Um exemplo é o Davi, nosso encarregado operacional. Ele terminou o Ensino Médio e quando recebeu o diploma, ele falou: “voltei a estudar porque a senhora me incentivou”.  Nossa, isso foi uma super conquista!

A sede do Rio de Janeiro também foi uma conquista significativa.  Começamos no Caju, em uma salinha dentro de uma Associação de Moradores que era um antigo necrotério.  Hoje temos uma sede com cinco prédios, um ginásio, uma quadra adaptada de tênis, dojo, dois laboratórios de informática, entre outras instalações.  Isso tudo depois de muito trabalho. Mas tenho muito orgulho em podermos oferecer espaços de qualidade para nossa criançada, isso é sinal de respeito a eles e à Educação.

  1. Livro, filme e mulher que admira.

Uma das mulheres que mais admiro é minha mãe, Maria Izabel Pantaleão, professora de Português. Ela dedicou toda sua vida à educação de forma extremamente profissional e apaixonada, por acreditar realmente no valor da educação.  Acredito que venha dela o meu viés social e educacional.  Hoje ela é voluntária na Gol de Letra e desenvolve oficinas de texto com os nossos monitores.  E, assim como eu, são todos apaixonados e fãs da “Dona Bebel”.

Um filme que vi recentemente e me marcou muito foi a Rainha de Katwe, dirigido pela indiana Mira Nair. A história gira em torno da personagem Phiona Mutesi, uma jovem de Uganda que sempre sonhou em ser jogadora de xadrez. Órfã e moradora de uma região bastante pobre, foi obrigada a abandonar a escola por falta de recursos, porém, continuou focada em atingir seus objetivos de vida. O filme é uma verdadeira lição para todos nós sobre foco, conquistas, determinação e, claro, esporte. Vale muito a pena assistir!

Escolher um livro marcante é uma missão bem complicada. São tantos! Um que li recentemente e me marcou muito foi o “Sapiens, uma breve história da humanidade”, do autor Yuval Noah Harari. O livro, em resumo, repassa toda a história da humanidade desde o seu surgimento, relacionando com o tempo presente e criando questões surpreendentes. O que me chamou atenção foi o fato de o autor mostrar diversos tipos de interpretações e olhares para crenças que temos hoje em dia, mostrando toda sua pluralidade de visões de mundo.