Anne Wilians trocou uma carreira profissional para partir para causas sociais. Aos 29 anos, mãe de um filho e à espera de um segundo, ela é presidente do Instituto Nelson Wilians (INW), órgão do terceiro setor vinculado ao Nelson Wilians Advogados.

Formada em Direito e Administração, dedica a vida a projetos de educação e defesa de direitos, mas engana-se quem pensa se tratar de assistencialismo. “Uma das coisas mais importantes hoje, quando se fala em terceiro setor, é ter uma gestão profissional e transparente”, ela diz. “A transparência atrai parceiros e pessoas dispostas a doar ou investir, digamos assim, capital e tempo em projetos sociais.”

Anne começou a trabalhar cedo. Atuou na área da saúde, e jurídica e aprendeu a importância de ajuda aos mais necessitados com os pais. Ela falou ao Mulheres Positivas sobre seus projetos.

1. Como começou a sua carreira?

Anne Wilians — Passei grande parte da minha vida trabalhando. Meus pais eram empresários no ramo da saúde e sempre que queria algo material tinha que ficar quase um mês trabalhando para conseguir. Essa era a “moeda de troca”. Passei anos indo toda a semana com eles no escritório, laboratório ou farmácia. Creio que isso até me traumatizou, pois passei a ter ‘pavor’ da área da saúde. Foi um jeito de, mesmo diante dos privilégios que tinha, eles me ensinarem o valor do trabalho.

2. Mas você também teve outras experiências?

Ainda adolescente, comecei a vender jóias e tomei gosto pela área comercial e institucional.Sou formada em Administração, Direito e sou advogada. São formações complementares para a função que  exerço atualmente. Meu último trabalho no segundo setor da economia foi junto ao Nelson Wilians. No escritório de advocacia, exatamente na área  institucional, quando posteriormente me desliguei do escritório e fundei o Instituto Nelson Wilians.

3. Por que você decidiu ir para o terceiro setor?

Era um sonho que acalentava desde a infância e que se tornou realidade. Quando criança e mesmo adolescente, acompanhava meus pais nos projetos sociais que eles se envolviam. Na época, havia um viés mais assistencialista. E, quando questionei isso, o meu pai apenas respondeu: “Faça você diferente e faça algo que acha que deva fazer”. Ele estava certo e, aos 17 anos, me aproximei de um grupo que visava desenvolver comunidades carentes na Ilha de Marajó. O projeto estava ligado aos — na época 8 — objetivos do milênio da ONU. Foi o primeiro projeto que ia ao encontro encontro com o que acreditava.

4. Então, foi seu pai que despertou em você a necessidade de ter uma abordagem mais profissional do terceiro setor? Mas depois disso, você voltou ao mercado privado, não é?

Este impulso do meu pai foi fundamental, mas quando me mudei para São Paulo suspendi meus trabalhos no terceiro setor por falta de tempo e até de maturidade emocional em lidar com tudo ao mesmo tempo. Hoje, trabalho na área que amo, empreendi no terceiro setor. Isso tem sido transformador na minha vida e já vejo a mesma coisa acontecer em milhares de outras vidas. Aproveitei do conhecimento e privilégios que tive e ainda tenho para trabalhar na democratização de oportunidades para as pessoas que mais precisam.

5.  Como é formatado o modelo de negócios do Instituto NW?

O Instituto Nelson Wilians tem foco no investimento de programas de educação, contando com investimentos e parcerias com terceiros e também no desenvolvimento de seus próprios programas. Hoje atuamos em 5 programas visando o social. Quatro deles são na área de educação para organizações sociais e comunidade e um é voltado para a assessoria jurídica de organismos do terceiro setor, apenas para organizações que estão amadurecendo o seu nível de governança e que passam por uma seleção. Uma das coisas mais importantes hoje, quando se fala em terceiro setor, é ter uma gestão profissional e transparente. A transparência atrai parceiros e pessoas dispostas a doar ou investir, digamos assim, capital e tempo em projetos sociais.

6. Por que o foco em educação?

Os programas de educação são as nossas meninas dos olhos, posso assim dizer, principalmente pelo resultado colhido no último ano, que foram surpreendentes. Investimos no EZAPe, um programa em parceria com o Instituto Alair Martins, de Minas Gerais, que desenvolve virtudes empreendedoras nos jovens. Outro curso que está alcançando o país inteiro é Multiplicadores do Saber Construindo Pontes. É um curso de desenvolvimento de competências socioemocionais para educadores sociais, dando ferramentas para o educador restabelecer a conexão com o aluno em sala de aula. O programa Fazendo Vencer trabalha no financiamento de bolsas para jovens carentes que estudam Direito. Ele permite que o jovem ganhe experiência em todas as principais áreas do direito. Por último temos o Programa Voluntariado – Compartilhando Direito, que atua nas comunidades, por meio de solicitações destas para advogados voluntários e parceiros atuarem através de palestras, ensinando o Direito do cidadão e o acesso à Justiça para as comunidades.

7. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Antes de criar o INW, passei alguns meses tentando me redescobrir como profissional. Este foi o momento mais difícil. Sendo jovem, sempre trabalhei, e estava cheia de energia para o mercado de trabalho. Sendo assim, precisei me readequar, e a minha visão — e principalmente dos steakholders — para lidar com o INW da forma mais profissional possível, ou seja, da forma como o terceiro setor deve ser encarado hoje em dia.

8. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora.

Teve fases da minha vida que realmente só pensava em trabalho, trabalho, trabalho. Isso não era um equilíbrio, mas foi necessário. Hoje, na minha vida, me permito ter um trabalho flexível, mesmo trabalhando de domingo a domingo. Faço home office, podendo acompanhar a vida do meu pequeno filho e do meu marido quando necessário.

9. Qual o seu maior sonho?

Dar maturidade ao INW, continuar desenvolvendo trabalhos sólidos e com efetivo impacto social. No fundo, é transformar a sociedade com histórias de sucessos dos educandos com quem entramos em contato.
E, claro, poder dar exemplo aos meus filhos, para auxiliar na formação do caráter, algo tão difícil hoje em dia, para que a educação deles extrapole conhecimentos técnicos.

10 Qual a sua maior conquista?
Não consigo definir uma conquista. Todas as áreas da minha vida obtiveram alguma conquista importante e sendo assim todas devem ser comemoradas, de preferência, todos os dias! Minha família, meu trabalho e meus amigos.

11. Livro, filme e mulher que admira

Vou citar um trabalho da editora Letramento com o Justificando, uma coleção chamada Feminismos Plurais que tem transformado muito minha visão. São mulheres negras que escrevem sobre quebra de paradigmas e estruturas da sociedade que por vezes reprimem minorias. Estou relendo o livro de Joice Berth, “O QUE É EMPODERAMENTO?”

Não consigo citar uma mulher admirável, e sim um conjunto de mulheres que vem transformando a sociedade, no mercado de trabalho, na cultura e na política. Temos grandes exemplos hoje e não seria justo eu citar apenas uma mulher.

Sobre  filmes? Prefiro citar o documentário de um trabalho que é referência para quem atua com o terceiro setor, “Muhammad Yunus: uma oportunidade para os pobres”.