Nossa Mulher Positiva se define uma ativista pelo direito das mulheres em prol de uma assistência obstétrica respeitosa. Ana Cristina Duarte é obstetriz de formação e coordena dois projetos bem especiais: o SIAPARTO, um Simpósio científico que reúne as melhores práticas e evidências na humanização do atendimento à mulher e ao bebê/ recém-nascido e o Coletivo Nascer, que é uma equipe de atendimento ao parto humanizado.

 

1. Como começou a sua carreira?

Eu sou obstetriz há 10 anos, ativista desde que nasci, coordenadora do SIAPARTO – Simpósio Internacional de Assistência ao Parto e coordenadora do Coletivo Nascer, equipe de atendimento ao parto humanizado. Minha história com a obstetrícia começou com o nascimento dos meus filhos, já no auge da cultura da cesariana. A chama da revolta com o sistema se instalou com a cesariana desnecessária da primeira filha. O parto normal do segundo filho deu a coragem de falar sobre isso, de contar para as outras mulheres sobre as armadilhas do sistema. Depois fui trabalhar como doula e por fim obstetriz.

Tenho um imenso orgulho desse time e um desejo grande de poder oferecer o parto humanizado ao máximo possível de mulheres. Detalhes pessoais, sou adepta do estilo de vida paleo/lowcarb, leonina, casada há 27 anos com o mais paciente dos homens e mãe de dois jovens adultos.

 

2. Como é formatado o modelo de negócios do SIAPARTO?

O SIAPARTO é um Simpósio científico que reúne as melhores práticas e evidências científicas à luz da humanização do atendimento à mulher e ao bebê/ recém-nascido o que quer dizer que discutimos, cientificamente, durante o evento, como prestar o melhor modelo de atendimento médico respeitando os direitos e desejos do binômio mãe e bebe.

O SIAPARTO acontece há seis anos e reúne cerca de 2 mil profissionais da área da saúde e de assistência ao parto como obstetras, enfermeiras obstétricas, obstetrizes, neonatologistas, doulas entre outros. Ele começou em 2014 num evento pequeno, e foi crescendo na medida do aumento da procura. Nunca precisamos recorrer a empréstimos porque esse modelo de crescimento sustentável nos dá fôlego para lidar com o evento seguinte com base no que recebemos no evento anterior. A gestão é enxuta, familiar, sem luxos e desperdícios. Mas todos participam das decisões para o melhor funcionamento. É uma grande festa anual da qual todos adoram participar.

 

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Sem dúvida alguma quando há um mau desfecho, para qualquer profissional da saúde, esses são os piores momentos. Ainda que sejam inevitáveis, ainda que sejam fatalidades, o óbito de um bebê, ou uma mulher gravemente enferma na UTI, são situações que tiram o nosso sono. Em qualquer especialidade é assim. Ninguém quer quem um paciente piore. A gente sofre junto com a família, a gente faz vigília junto, a gente fica depois semanas sem conseguir trabalhar direito. Por outro lado, as grandes vitórias me dão o gás que eu preciso para lidar com os maus momentos. Mulheres que não poderiam ter filhos e conseguem, ou que saem de doenças graves através de nossas ações e dos avanços da medicina, essas alegrias deixam a gente em profundo estado de emoção e satisfação.

 

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora?

Como empreendedora, profissional de saúde e ativista são muitos os desafios enfrentados diariamente, mas tudo (ou quase) é recompensado quando sei que o meu empenho diário – e de outros profissionais extremamente competentes e engajados – fazem com que as mulheres e seus filhos e filhas tenham um atendimento mais respeitoso no momento do nascimento. No fundo, quando temos equipes coesas trabalhando junto, as coisas se misturam e nossa família é nosso trabalho e vice-versa. Eu gosto muito de trabalhar, eu amo o que faço e minha família entende que essa é a mãe/mulher/filha/irmã que eles têm. Por outro lado, sou uma pessoa tremendamente realizada, feliz e satisfeita, que trago essa alegria para dentro da família.

 

5. Qual seu maior sonho?

Garantir a todas as mulheres o direito de uma assistência obstétrica justa, segura, gentil, respeitosa e baseada em evidências.  E que os profissionais que lutam pela melhoria da assistência deixem de ser perseguidos nas instituições. Lutar contra a maré é sempre um desafio, e as brigas institucionais minam a nossa energia.

 

6. Qual sua maior conquista?

O Siaparto que hoje se tornou uma referência em atualização profissional de qualidade na área de obstetrícia e o Coletivo Nascer – que é um grupo de assistência ao parto humanizado com custos viáveis para mais famílias, e que hoje atende cerca de 40 partos por mês. Minha família também é uma conquista, mas eu divido ela com as outras três pessoas que fazem parte, porque são três seres humanos maravilhosos, cada um do seu jeito.

 

7. Livro, filme e mulher que admira.

Livro: Os pilares da terra (Ken Follett)

Filme: Matrix

Mulher que admiro: Minha mãe, uma grande conciliadora, artista de vários talentos, uma inteligência sagaz, e com uma intuição afiada que continua deixando filhos e netos atônitos. Como diz a neta mais velha, a vovó sabe tudo.