Foto: arquivo pessoal

Após sofrer um acidente doméstico, Amélia Sousa Pereira, 43 anos, ficou sem os movimentos do braço esquerdo. Por causa disso, ela perdeu o emprego de diarista e mergulhou em uma depressão profunda.

Devido ao quadro, foi aconselhada por uma psicóloga a procurar um curso para se distrair. Foi nesse momento que ela conheceu o Fab Lab Livre, uma das maiores redes de laboratórios públicos de fabricação digital da América Latina, programa gratuito mantido pela Prefeitura de São Paulo.

Dos mais de 30 cursos oferecidos pelo serviço Amélia escolheu o Design em 3D, onde criou materiais e utensílios que a ajudam em seu dia a dia. “No fim de semana, queria fazer um bolo e sentia muita dificuldade. Quando ia despejar a massa na forma, tinha que pegar uma colher de pau grande e segurar com a boca”, conta a ex-diarista, que de suas próprias dificuldades na cozinha, criou objetos que facilitam sua vida e de outros deficientes.

Hoje seu foco é criar uma ONG ou oficina de voluntários e cursar Direito. “Sei que isso envolve muito dinheiro e não tenho condições físicas de trabalhar de maneira braçal. Mas como advogada, talvez consiga ter condições de ajudar melhor meu próximo.”

Confira a entrevista a seguir.

Sua história é de superação. Conte um pouco dela para o Mulheres Positivas. 

Após um acidente doméstico fiquei monoplégica do braço esquerdo. Sem os movimentos, perdi meu emprego. Era diarista, mas alguns dos meus patrões tinham medo de que eu caísse limpando as coisas e me dispensaram. Cheguei a vender batata frita, precisava me alimentar, mas não deu certo porque o carrinho era muito grande e eu não conseguia empurrar. Mergulhei em uma depressão e fui aconselhada por uma psicóloga a procurar um curso ou ocupação para me distrair. Foi aí que conheci o programa Fab Lab Livre da Prefeitura de São Paulo, que mudou totalmente minha vida e graças a ele estou ajudando a mudar a vida de outras pessoas que sofrem com as mesmas dificuldades que eu.

foto: arquivo pessoal

Como o programa mudou sua vida e te possibilitou voltar à ativa? 

Já no primeiro dia do curso, comecei a desenvolver materiais e utensílios baseados nas minhas dificuldades em desempenhar tarefas simples do dia a dia com uma mão só, como derramar a massa do bolo em uma forma e lavar um copo sem ele ficar ‘dançando’ na pia. Hoje uso esses utensílios que criei para ajudar outros deficientes por meio de um trabalho voluntário. Não cobro nada para desenvolver e as pessoas os recebem de graça. Faço por amor.

Conte mais sobre esses utensílios que criou com a ajuda do curso. 

Minhas criações são para ajudar o dia a dia dos deficientes, principalmente os que moram sozinhos. Criei uma peça que segura a tigela enquanto despeja a massa do bolo na forma, uma haste para prender a panela no fogão, uma tábua que prende os alimentos para que sejam cortados, uma tipoia que não prende no pescoço e sim na cintura ­ — evitando assim as dores da cervicalgia, doença que me faz sentir muita dor — um grampo que prende o copo na pia, suporte que ajuda a bater os pregos na parede e muitos outros.

Foto: arquivo pessoal

Qual seu maior sonho? 

Meu maior sonho é conseguir voltar à faculdade de Direito, que comecei em fevereiro de 2018 e tive que largar em abril do mesmo ano, para ter condições de montar uma ONG ou uma oficina de voluntários. Sei que isso envolve muito dinheiro e não tenho condições físicas de trabalhar de maneira braçal, mas como advogada, talvez consiga ter condições de ajudar melhor meu próximo.

Qual sua maior conquista?

Minha maior conquista foi ter agarrado a oportunidade que Deus me deu de sobreviver ao meu acidente. Antes não tinha ambição, era diarista, só tinha estudado até a oitava série e estava bem naquela posição, não queria fazer mais nada da vida. Depois que entrei na Fab Lab minha mente abriu, terminei meus estudos e prestei vestibular para Direito. Pena que não consegui cursar.

Por que não conseguiu cursar a faculdade de Direito?

Entrei na Unip, mas no meio do primeiro semestre não tive mais condições financeiras de pagar o curso. Por causa do meu braço, ganho apenas um salário mínimo pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que é um direito da pessoa com deficiência. Todo o resto do meu trabalho é voluntário, inclusive as palestras.

Para encerrar: Um livro, um filme e uma mulher que admira?

Um livro: A Cabana.

Um filme: Interestelar.

Uma mulher: minha mãe Elenita, que já é falecida. Negra, analfabeta, nordestina pobre e sofrida, mas que nunca se entregou diante das dificuldades e sempre me ensinou a ser guerreira.

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