Nossa Mulher Positiva é Alcione Albanesi, empresária e empreendedora, uma self made woman. Construiu a maior empresa de lâmpadas do país e fundou a ONG Amigos do Bem, considerada uma das promessas para tirar o Brasil da linha da pobreza. Hoje, ela se dedica 100% ao projeto social que reúne mais de 9.200 voluntários que transformam a vida de 75 mil pessoas todos os meses.

1. Como começou a sua carreira?

Sempre busquei a minha independência. Quando pequena, rifava os meus presentes para guardar o meu dinheirinho em um cofrinho. Na adolescência, trabalhei como modelo e logo vi que queria ser a dona da confecção, economizava e aprendia com as costureiras a como trabalhar com modelagem. Aos 17 anos, já tinha 80 funcionários. Aos 25 anos, ao ver a ascensão dos lojistas da Rua Santa Ifigênia, vendi minha confecção para abrir uma pequena loja de materiais elétricos, este foi o meu início em um mercado até então dominado por homens. Pouco tempo depois, fiz minha primeira viagem para a China e trouxe as primeiras lâmpadas econômicas para o Brasil. Em 1993, fundei a FLC, marca que se tornaria líder de vendas de lâmpadas no país, a frente das multinacionais. Fiz mais de 70 viagens para a China buscando inovação e eficiência energética e, em 2014, inaugurei a primeira fábrica de lâmpadas de LED no país.

Em paralelo a minha empresa, eu liderava o meu projeto social, que também crescia a passos largos. Uma viagem de distribuição de doações para o sertão nordestino, em 1992, mudou a minha forma de ver e enxergar o mundo. E, durante anos, me dividia entre a FLC e os Amigos do Bem, passando mais de 10 dias por mês no sertão. Em 2014, tomei a decisão mais difícil da minha vida: decidi vender 80% da minha empresa para me dedicar exclusivamente aos Amigos do Bem, que se tornou um dos maiores projetos sociais do país, atendendo, todos os meses, mais de 75 mil pessoas com projetos de educação, geração de renda, água, moradia e saúde.

2. Como é formatado o modelo de negócios do AMIGOS DO BEM? 

O nosso trabalho é muito sério. Nos Amigos do Bem buscamos atuar com a mesma eficiência de uma empresa, porém o resultado final do nosso trabalho é a transformação de vidas, com o ingrediente do amor. Nosso projeto é complexo e enfrentamos inúmeros desafios. São 75 mil pessoas atendidas pela instituição. Atuamos em diferentes áreas da vida, com uma logística difícil, percorrendo quilômetros para chegar até as regiões mais carentes e abandonadas do nosso país. Temos 4 Cidades do Bem no sertão de Alagoas, Pernambuco e Ceará, 4 Centros de Transformação onde estudam 10 mil crianças e jovens, geramos mais de 1.000 empregos, além de distribuir 400 milhões de litros de água, levar 30 mil atendimentos médicos por ano e construir casas. Nossos ônibus escolares percorrem 250 mil km por ano para garantir que crianças de povoados distantes tenham educação e oportunidades. Tudo é acompanhado de perto.  Somos em mais de 9 mil voluntários que se espalham em 118 grupos de trabalho. O diferencial do nosso projeto não é apenas o quanto fazemos, mas como fazemos. Não queremos perder jamais o sentimento que nos levou até lá a primeira vez.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Posso dizer que foi quando tomei a decisão de vender a minha empresa para me dedicar ainda mais aos Amigos do Bem. Conciliei por anos o trabalho social estando à frente de uma empresa líder de mercado, mas ao mesmo tempo, cuidava de um projeto social de grandes proporções. Por muitos anos, eu passava pelo menos 10 dias todos os meses no sertão e isso implicava em estar longe do cotidiano da FLC. Percebi que em um mercado competitivo eu teria que escolher. Acredito que existem excelentes profissionais para fazer gestão de empresas, mas para cuidar de pessoas é necessário dedicação e muito amor. Foi uma decisão bem difícil, porém necessária e confiante. Não quero ser apenas uma empreendedora de sucesso, nós empresários precisamos deixar um legado e contribuir para o nosso país. Eu realmente acredito na transformação de vidas e em nossa capacidade de mobilização.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora. 

Como fundadora da FLC Lâmpadas precisei dividir minha rotina entre a empresa, o projeto social e a família. Tenho 4 filhos e sempre busquei compartilhar com eles minha rotina, seja dos negócios ou com uma participação ativa nos Amigos do Bem. Sempre falo que o Bem se ensina. Eu sou muito grata à minha mãe que me ensinou, desde pequena, o exercício da solidariedade. O trabalho voluntário deve ser visto como um compromisso. Já passei muitos períodos de Natal e Ano Novo com as famílias do sertão, deixei de ir em festas, não agendei reuniões importantes, porque acredito que Fazer o Bem é a sensação de dever cumprido perante a vida.

Ninguém constrói nada sozinho, esta história de transformação só é possível por conta de milhares de voluntários que também trabalham  pela causa e seguem com o lema: “Se não posso fazer tudo o que devo, devo, ao menos, fazer tudo o que posso”.

5. Qual o seu maior sonho?

Um Brasil melhor para as futuras gerações, um país sem tantas desigualdades. Trabalhamos para que a fome e a miséria sejam apenas lembradas como um fato histórico do nosso país.

6. Qual a sua maior conquista?

Transformar a vida de milhares de pessoas e a minha própria vida através de atos de amor e solidariedade. Crianças que corriam no mato seco e viviam em extrema miséria hoje falam inglês e, com a ajuda dos Amigos do Bem, estão cursando faculdade. Hoje, elas já podem sonhar com um futuro diferente, com oportunidades. Estamos rompendo um ciclo secular de miséria e abandono no sertão. Muito já foi conquistado, mas estamos apenas no começo de nossa caminhada. Nosso trabalho não é apenas buscar a eficiência, mas o compromisso de amor e o propósito de fazer sempre mais e melhor.

7. Livro, filme e mulher que admira

Livro: de biografias em geral. Gosto de histórias verdadeiras.

Filme:  “Moscati, o amor que cura” e “Öut of Africa”

Mulher: Minha mãe, a árvore do bem e o meu maior exemplo de amor e solidariedade, Guiomar de Oliveira Albanesi.