As alunas do colégio Rio Branco, um dos mais tradicionais de São Paulo, fizeram um abaixo-assinado, que já conta com mais de 700 assinaturas. A reivindicação é pelo direito de usarem bermudas curtas nesse calor de 40 graus que está assolando a cidade. Do outro lado, a direção da escola argumenta que as adolescentes compram a bermuda do uniforme um número menor do que usam, para que a peça fique mais justa e curta. Segundo as meninas, a direção está proibindo as bermudinhas por achar que atraem os olhares masculinos. Elas querem ter o direito de andar como quiserem e de se expressarem. E os meninos que “controlem seus hormônios”. A notícia foi divulgada nessa sexta, 5, pelo jornal Folha de S. Paulo. Quem tem razão nessa história? Acho que os dois lados. E eu digo isso já sabendo que muitas mulheres, incluindo amigas que me conhecem e sabem que eu não sou nada machista, me acusarem disso mesmo.

A direção da escola quer um ambiente tranquilo, em que os meninos e meninas, que começam agora a lidar com sua sexualidade, consigam se concentrar no mais importante: o ensino. E bermudinhas curtas e justas em corpinhos adolescentes podem prejudicar o rendimento escolar dos garotos em plena puberdade, tão curiosa, vamos dizer assim. Não estou dizendo que concordo, apenas presumindo que é por aí. Mas é a vida, né? Talvez a bermuda justa incentive um pouco mais esse aspecto comum à adolescência. Mas acho que isso já acontecia quando as meninas usavam saias abaixo dos joelhos e meião. O corpo feminino foi sexualizado por séculos. E em nossa época mais do que nunca. E no Brasil mais do que em qualquer lugar. Tenho horror daqueles anúncios da Embratur do passado, em que uma das atrações turísticas do país eram as bundas das mulheres na praia. Para, né? Machismo institucionalizado, assinado pelo governo.

Entre o que almejamos como exemplo de sociedade e o que a gente tem que lidar no dia a dia, ainda há um abismo. Algumas pessoas terão a coragem de transpô-lo, para que outros também possam fazer isso mais pra frente. De fato, se não fossem as mulheres que ousaram (obrigada, Chanel e Mary Quant), nós ainda estaríamos usando espartilhos e saias até o tornozelo. Alguém tem que começar o movimento, sim, e provar que a pouca roupa não justifica NADA que se faça contra as mulheres. Isso é um horror, digno de estado de emergência. E, lembrando um artigo recente da cineasta Tetê Vasconcellos,  as alemãs têm direito  de usar um microshorts na rua sem que ninguém faça nem fiu-fiu e nós, brasileiras, temos que aguentar as bobagens que os homens das cavernas nos dizem o tempo todo. Pois é, espero que um dia a gente chegue lá sem ter que ir pra Alemanha.

Por tudo isso, as estudantes querem usar o que têm direito e o que a juventude permite. Até aí, tudo bem. Estejam onde estiverem… Opa!  Escola tem seus códigos de vestir criados por quem dirige a coisa. E, se a gente está lá é porque, até certo ponto, aceita sujeitar-se a esse código. Como no ambiente de trabalho, até podemos ir de decote profundo e minissaia para o escritório, mas é ingênuo afirmar que isso não incomoda (ou alegra) algumas pessoas, que não desperta reações. Em uma empresa, como em uma escola, um colega com perfume muito forte poderia incomodar os outros. Uma colega com vestido muito decotado, transparente, também poderia fazer o colega ao lado, que tem que usar terno e gravata, por exemplo, sentir-se desconfortável com a diferença de “direitos”. Assim como as mulheres que hoje querem andar sem camisa na rua, como os homens fazem numa boa, sem serem consideradas indecentes por isso, os meninos podem querer usar bermuda de lycra de ciclista na escola por conta do calor. E aí, quem vai dizer que não? (ok, eu sei que eles não vão querer, mas a igualdade de direitos têm que valer para os dois lados).

Vamos, então, olhar do outro lado, ou melhor, pelo nosso lado. Pelo lado de quem veste a bermudinha justa porque a mais longa e larga seria “brega”. Primeiro ponto: se as meninas do Rio Branco disseram isso mesmo, como afirmou a diretora,  é porque transformamos em moda permanente uma roupa que  mostra o corpo ao limite, uma moda sexy, que inventa que é legal  usar uma calça mais justa que Deus, desconfortável até a alma e que contribui ainda mais com a sexualização exagerada. Sim, é um direito, mas também é a moda de uma sociedade machista, que diz que mulher tem que ser gostosa e gritar pra todo mundo ouvir. Para mim, isso é tão questionável quando a “obrigatoriedade” de tingir os cabelos brancos que nos impuseram e em que a gente acreditou. Quem quiser  que mostre, quem quiser que tinja, mas vivemos uma certa ditadura desses conceitos, a ponto de fazer as meninas de 15 anos acreditarem nessas bobagens. E, isso sim, é super machista. Não temos que ser gostosas, podemos ter cabelos brancos. Assim como os homens.

Segundo ponto: que mensagem quero passar, que aspecto da minha personalidade quero expressar (porque roupa é expressão e mensagem), quando uso uma peça que mostra minhas curvas, pernas etc etc etc? Como consultora de estilo, eu digo que não tem mensagem certa ou errada. Tem a mensagem que nos traduz, que expressa nossa personalidade – e que nos ajuda a chegar onde queremos, muitas vezes. Qual a mensagem de uma saia curtinha? De um cordão de outro no pescoço de uma camisa aberta até o umbigo? De um terno impecável azul marinho? Cada um tem a sua, adequada ao seu ambiente, à sua personalidade, ao seus desejos e ambições. E, para cada uma dessas mensagens, há uma reação do outro. Nós somos “lidos” o tempo todo. Pelo chefe, pelo colega de trabalho, pelos amigos, pela pessoa que a gente paquera na festa. Não controlamos tudo o que o outro lê, mas controlamos o que expressamos por meio do nosso estilo e do nosso corpo.