fabiana correa
Me julguem, tô nem aí. A gente julga mesmo. E até mesmo quem fala que não julga (porque está na moda dizer “eu não julgo ninguém…mas”), julga um pouquinho. Usar nossos sentidos para julgar nossos iguais é um instinto. Tá certo que de algum tempo pra cá os fofoqueiros digitais resolveram usar esse instinto pra julgar mães que deixam seus bebês comerem brigadeiro e outras coisas essenciais para a evolução da humanidade, mas isso é problema de quem está sem louça pra lavar. Voltando ao que intressa, poucas coisas são mais estimulantes para suscitar um julgamento qualquer do que o jeito que as pessoas se vestem. Adoro ficar olhando e tirando minhas conclusões, mesmo sabendo que elas podem não ter tudo a ver com a realidade. É minha brincadeira secreta quando ando numa rua loada.

E a ideia é essa, mesmo. Quero dizer, quando a gente se veste, está passando uma mensagem. Ainda que seja “ sou inconsciente da mensagem que eu tô passando”, mas tá. Eu julgo as pessoas pelas roupas. E isso não quer dizer que vou dizer que vou taxar você de brega, chique, desleixado, confiável ou algo assim. Só quero dizer que vou ter algumas informações a mais, mesmo que a gente nunca se fale. E posso mesmo me enganar, mas adoro investigar secretamente. Se você vier com baba no ombro, vou logo concluir que está com bebê novo em casa. E quem põe um decotão, vai dizer que não gosta de se afirmar? Nem vou falar das calças justas dos sertanejos. Roupa é mensagem em movimento.

Outro dia fui bem arrumadinha, toda certinha, de sedas e linhos, conhecer um cliente dentro de uma empresa bem tradicional, no Itaim, em um super prédio neoclássico, com um escritório todo de mármore bege. Enfim, um lugar convencional, uma empresa convencional, um cliente convencional. Tudo o que eu queria era pegar o trabalho. Tudo o que eu não queria era chocar. Saindo de lá fui visitar uma amiga no meu antigo bairro, a Vila Madalena, aproveitei pra abastecer a geladeira com orgânicos no mercadinho local e buscar uma peça para minha bicicleta na oficina perto do meu antigo apartamento. E, sem querer, choquei. Se estivesse com meus Birkenstocks teria passado batido. Mas…scarpin?! Que madame! Concluí que andar em São Paulo é um troço mesmo complicado em termos de estilo. Você vai de Mauricinhos a Hipsters em pouco mais de 4 km. Mas, como o trânsito é lento, dá tempo de trocar de roupa no engarrafamento. E, não, eles não estão de todo errados ao me chamarem de madame (mesmo porque não há nada de errado em ser uma). Mas o que mais valeu nessa história é a ideia simplesmente incrível de que podemos mudar o julgamento que alguém fará de nós com uma simples muda de roupa – pelo menos à primeira vista. Eu estava super adequada para o cliente novo, mas mal vestida para meu bairro velho. E tudo bem, porque tenho a madame e a hiponga dentro de mim, no problem. Roupa é isso mesmo, um jeito de afirmar, sem palavras, tudo o que a gente traz dentro da gente.

Me julguem.

E até a semana que vem.