Passado um mês da quarentena – no meu caso, exatas seis semanas em razão do fechamento da escola das crianças – não há como negar que chegamos à certeza de que vivemos em meio ao excesso. Ele é representado pela quantidade de roupas, sapatos, mobília, comida, louça, livros e muito mais daquilo que nos cerca em todos os cômodos da casa. Perdoe-me se este não for o seu caso, mas a cada dez pessoas com quem tenho conversado no período, ao menos oito relatam “pra quê eu tenho tanta coisa?”. 

(Anelisa Lopes escreve sempre às terças. Acompanhe alguns de seus projetos e referências no Instagram: @anelisalopes)

Organização, consciência e prazer devem ser palavras de ordem no nosso tempo em casa (imagem: George and Willy/Pinterest)

Se vamos mudar nossa forma de consumir ou não após a passagem dessa pandemia é outra questão. O fato é que acumulamos demais – e, pior, sem saber muitas vezes o porquê.   E, nosso templo que deve ser restrito a descanso, reflexão e sociabilidade está lotado de… vazio. 

Na correria do dia a dia, não damos valor ao prazer de um banho quente após um dia de trabalho, da satisfação de uma comida feita na hora, da conversa jogada fora com o vizinho ou de observar os minutos finais do sol se pondo. Mas temos nas mãos um companheiro diário que não pode substituir o que é real, o celular, e que nos rouba um tempo precioso de consciência que deveríamos ter em casa. 

É chegada a hora de se livrar do que não é necessário. De “limpar” nosso refúgio e manter apenas aquilo que nos traz bem-estar, boas memórias e funcionalidade. Deixar nossa casa pura e viva: limpar, organizar, se desprender do que não nos serve, doar, consertar em vez de substituir, cultivar uma mini-horta, cuidar das plantas, dar bom dia ao faxineiro do prédio ou ao guarita da rua. Desacelerar e entrar em contato consciente com cada canto do nosso abrigo e, definitivamente, entender que o virtual em demasia e o consumo em excesso nos projeta para cada vez mais longe de nós mesmos.