Quem não se lembra de construir cabanas e casinhas com lençóis e cabos de vassoura quando criança? Durante esses quatro meses de isolamento, não pude deixar de notar o quanto meus filhos recorriam à mesma brincadeira: criar esconderijos imaginários numa tentativa de habitar seu próprio espaço. 

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Criar e habitar espaços proporciona inúmeros aprendizados (foto: Nova Natural/Pinterest)

Talvez pela correria do dia a dia e pela vida social acelerada imposta a eles, nunca tivemos a oportunidade de vivenciar essa brincadeira tão comum a mim e ao meu irmão. Uma barraca no meio da sala era o refúgio ideal para construir meu mundo. Lá pra dentro carregava de tudo um pouco: boneca, livros, lanche… e por ali passava horas num território só meu. 

A percepção que as crianças fazem dos espaços amplia a possibilidade de transformar lugares. Por isso, é importante estimular esse tipo de conceito. Enquanto como profissional eu desejo chegar ao resultado final, nesta arquitetura infantil todas as possibilidades estão em aberto: a experiência acontece no presente e não no futuro. 

É uma forma de construir de forma livre e espontânea, com vários momentos e des/reconstrução. Esse exercício de não interferência para mim é um aprendizado, pois até nas casinhas de blocos de montar fico presa ao perfeccionismo. Mas, com eles, tenho aprendido a me livrar da rigidez. “Mamãe, você é designer de interiores, então, me ajude a deixar minha casa bonita, mas a ideia tem de ser minha”, pede o mais velho. 

Por mais simples e fora da realidade que possa parecer, esses refúgios têm um papel importante no desenvolvimento das crianças: estimulam a capacidade de imaginar, refazer, serem mais flexíveis e espontâneas frente ao mundo real. Deixar a criança livre para executar sua “obra” também tira o papel de subordinação a que tanto estão submetidas no dia a dia. 

Lençóis, pregadores, cabos de vassoura, travesseiros, elásticos, fita crepe, sucata… Vale de tudo para estimular esse aprendizado. Eleja um tema que será trabalhado lá dentro (caverna do dinossauro, barco pirata, casa na árvore…) e mãos à obra. No fim, percebemos por meio deles o quanto aprendemos sobre nós mesmos na tentativa de construir e habitar nossas espaços. 

Um dos nossos primeiros refúgios na quarentena (foto: arquivo pessoal)