Tive o privilégio de morar minha infância e adolescência em um apartamento próximo à avenida Paulista. Um passeio recorrente que fazia com minha mãe era caminhar de casa até as ruas Augusta e Oscar Freire, trajeto que contemplava os casarões da icônica avenida da capital.

(ANELISA LOPES ESCREVE ÀS TERÇAS. PERFIL NO INSTAGRAM: @anelisalopes)

Portão onde eu parava por diversas vezes para contemplar a mansão Matarazzo (foto: Pinterest/São Paulo Antiga)

Entre tantas heranças arquitetônicas das famílias quatrocentonas da cidade, meu pit stop favorito era em frente ao portão da mansão Matarazzo, número 1230 da Paulista. Espiava por entre as grades, imaginando como era o estilo de vida daquela casa: carruagens, festas intermináveis, objetos de arte, mordomos… E ali passava uns bons minutos criando uma história mais tarde replicada com minhas bonecas – umas delas até foi batizada de Raphaela Matarazzo.

Nos anos 1990, numa disputa entre a prefeitura, que queria o tombamento para abrigar um museu, e a família Matarazzo, que desejava a venda, a mansão de 19 cômodos situada num terreno de 12 mil m2 acabou dando lugar a um estacionamento – para pagar o IPTU de quase meio milhão de reais da propriedade – e, posteriormente ao atual shopping Cidade São Paulo.

Mansão Matarazzo, demolida em janeiro de 1996 (foto: Pinterest/São Paulo Antiga)

Quando a mansão começou a ser demolida, ano de comemoração do centenário da casa (1996), eu já adolescente, chorei. Assim como aconteceria com a construção, iriam embora também tantas lembranças de uma época em que criar enredos era uma das minhas brincadeiras favoritas. De lá para cá, muitos foram os casarões que deram lugar a torres de apartamentos de metragem mínima e hospitais nessa região. Assisti a várias demolições na rua onde eu morava, Martiniano de Carvalho, inclusive daquela que foi a minha escola primária.

Interior da mansão, que tinha 19 cômodos (foto: Pinterest/São Paulo Antiga)

Hospedagem de luxo – no início do mês foi inaugurada a Cidade Matarazzo onde funcionava o Hospital Umberto I (conhecido como Hospital Matarazzo) e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo a poucos metros da mansão da família. Fundados em 1904 e 1943, respectivamente, o antigo hospital foi desativado em 1993 e ficou fechado durante quase 20 anos até ser comprado pelo empresário Alexandre Allard em 2007.

O espaço completamente restaurado abriga um megacomplexo de luxo em meio à mata preservada e conta com três intervenções arquitetônicas contemporâneas erguidas por um time de arquitetos e designers de primeira linha ao lado das construções históricas do local: a primeira filial da rede de hotéis Rosewood na América do Sul, diversos restaurantes, lojas e centro cultural.

Quem quiser sentir o gostinho da vida glamurosa de um Matarazzo pode adquirir uma das suítes apartamento disponíveis para venda no complexo pela bagatela de R$ 50 mil o metro quadrado e ter à disposição os serviços da rede hoteleira. Quem disse que o conto de fadas acabou?

Uma das suítes à venda na Cidade Matarazzo, com projeto de interiores de Philippe Starck (foto: Cidade Matarazzo)