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Ele passou de repente e abduziu meu pensamento. Andava devagar, mancando. Sem camisa, sem máscara, de bermuda, com um olhar perdido. Onde vive? De onde vinha? E a família, será que existe? O vi de longe, enquanto estudava a pauta do dia no carro. Nem me lembro do assunto, mas não me esqueço dele. Um menino do porte do meu filho, um pouco mais velho. Talvez tenha uns 15 anos. Pode ser que estivesse sob o efeito de drogas, antes das sete da manhã.

 

“Meninos, perguntem se ele quer um pão!”, pedi. Mas o adolescente foi grosseiro. Não me surpreendi, ele já deve ter se acostumado a ser tratado assim. Desci, deixei um trocado na padaria e pedi para fazerem algo pra ele.

 

Uns diriam que ele está nessa condição por “falta de vergonha”. Aliás, ouvi dia desses: “Um homem forte como esse. Não arranja trabalho porque não quer! Vai vender bala no sinal, correr atrás de serviço!” Na hora, não contestei, mas pensei: “Pra conseguir dar alguma coisa na vida – e olhe lá – numa situação de extrema pobreza, é preciso muito mais do que ser um sobrevivente. Falta tudo.

 

No mesmo dia, cheguei em casa e li na capa do jornal que o dólar tinha caído e a bolsa subido, com a sinalização do governo de que o auxílio emergencial não será prorrogado. Paralisei, chocada. Lembrei do menino e de inúmeros que vejo nas ruas todo dia. Sei que o teto de gastos é importante, mas a reação do mercado revela que as vidas importam mesmo. Num cenário de crise sanitária, em que milhares já morreram e outros tantos ainda vão, milhões perderam o emprego e outros ainda vão demorar a recuperar a renda (já baixa), é preciso continuar a cuidar minimamente das pessoas. Se países superaram guerras com consequências muito piores, como vamos deixar brasileiros desamparados nessa guerra contra o novo coronavírus?

 

“Não é a hora de baixar a guarda. Estamos atravessando um mar revolto. Seria muito triste morrer na praia”, sentenciou o coordenador do grupo contra o novo coronavírus da UFRJ, Roberto Medronho, num entrevista que fiz com ele para a RecordTV Rio.

 

O fim do ano chegou com um onda de COVID19 se sobrepondo à primeira onda que ainda nem tinha acabado em muitas cidades, a iminência de novas medidas restritivas defendida por especialistas e um mar de gente prestes a ficar sem nenhum amparo no olho do furacão.

Dá para ignorar esses meninos e as famílias deles? Vamos fechar os olhos para as consequências sociais que virão? Dá pra nos salvar e deixar que tantos outros se percam completamente?

Diga aí.

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