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“O trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade”. O que dizer dessa frase, meu Deus? Parece coisa inventada. Mas a essa altura você já sabe que é a nova do presidente.

 

Entra semana, sai semana, a sensação que dá é de que a gente está voltando para o passado. Pior: você quer porque quer duvidar da realidade. Onde já se viu em pleno século 21, um presidente defender o trabalho infantil? Nem precisa de projeto de lei. Ah, se fosse lá em Osaka, na reunião do G20… Certeza que o tal acordo da UE com o Mercosul empacava.

 

Mas, que fique bem claro, trabalho em qualquer idade só é bom pra pobre, claro. Aliás, daria pra compreender assim: comece cedo, antes da adolescência e trabalhe até morrer, já que aposentadoria vai ser difícil. E não reclame – mania de pobre essa – porque dignifica.

 

A linha de raciocínio se segue: “Quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar tá cheio de gente aí “trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil”.

 

Claro que Bolsonaro não está criticando as decisões que eu e você tomamos para os nossos filhos. Certamente, ele também não pensou nessa possibilidade para os filhos dele. Afinal, a gente aqui, que tem internet, rede social, saneamento de qualidade, etc, dá duro para pagar escola de qualidade e ainda se esforça para oferecer oportunidades extras que vão estimular habilidades que podem ajudá-los na vida.

 

Mas para quem acha que trabalho infantil é coisa boa, aqui vai uma noção básica, da Organização Internacional do Trabalho, a OIT: trabalho infantil é o que priva as crianças da infância, do potencial e da dignidade. É também a forma de trabalho prejudicial ao desenvolvimento físico e mental, que as impede de frequentar a escola. Ou seja, trabalho não dignifica criança! Escola sim. Oportunidades sim. Brincar, sim.

 

Enquanto vivemos no país do retrocesso, nós, que exercemos a parentalidade consciente, assistimos e tentamos acompanhar um movimento internacional em que especialistas apontam a importância do tempo para o livre brincar, em vez de encher as agendas infantis com cursos e compromissos. A gente quer criar pessoas criativas, com habilidades emocionais. Mas o presidente está pregando o trabalho.

 

Como se fosse pouco 2,7 milhões de crianças e adolescentes brasileiros entre 5 e 17 anos trabalhando irregularmente no país, segundo dados do IBGE de 2016. Em todo o Brasil, a mão de obra de crianças e adolescentes ainda é explorada de forma indiscriminada e as vítimas têm negados os direitos à infância e à educação. Como é que isso pode ser bom mesmo?

 

Mas para o presidente, o mais importante é a experiência pessoal. A realidade que ele viveu quando tinha 9 e 10 anos e “trabalhava na fazenda”, como diz. E não as estatísticas, as pesquisas e a ciência.

 

Se você ainda tem dúvidas da gravidade da linha de pensamento, talvez consiga entender algo mais com relação ao trabalho infantil já que, no Brasil, quase metade das famílias que têm crianças e adolescentes trabalhando (49,83%) têm rendimento mensal per capita menor do que meio salário mínimo.

 

“O trabalho infantil expõe crianças e adolescentes a muitos riscos de acidentes, de mutilações, de adoecimento e de óbitos, no momento de desenvolvimento que requer muito cuidado, proteção e atenção”, afirmou a secretária-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Isa Oliveira, no dia no Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, comemorado há menos de um mês, em 12 de junho.

 

“É interessante observar que essa naturalização é para crianças e adolescentes de famílias de baixa renda, que são vítimas de exclusão social”, afirmou. Como é que reduz a desigualdade, a violência urbana e melhora os índices de saúde e de desenvolvimento, com tanta desigualdade? Dá vergonha viver num país onde o trabalho infantil é naturalizado até pelo presidente. Desse jeito, nunca haverá ordem nem progresso. Só Deus mesmo!

 

*Vem pro @maesemreceita, no Instagram.