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Tente imaginar a cena: Noite de sexta-feira, cidade turística do interior do centro-oeste do país. Como em muitos municípios pequenos, a praça principal é o ponto de encontro de muitas famílias. A do Matheus, de 7 anos, irmão da Carolina, de 4, sempre vai pra lá, para as crianças brincarem.

 

Só que, na véspera do primeiro turno, em vez de diversão, o passeio deu lugar à preocupação e ao medo. “Matheus ficou quieto de repente. Achei estranho, afinal, ele é superativo”, conta a mãe, a psicóloga Lígia Bianchi, de 43 anos. Ela e o marido decidiram se mudar com os filhos de uma capital mais ao sul pra essa cidade há dois anos, em busca de qualidade de vida.

 

Meia hora depois do filho ficar arredio, veio a revelação:

“Mãe, o menino viu a minha unha colorida e disse que o Bolsonaro vai ganhar a eleição e vai me matar, porque ele odeia veado.”

 

O que você diria para o seu filho se ele tivesse ouvido isso, enquanto jogava bola com outras crianças numa praça?

Tente responder.

 

A mãe parou tudo e deu atenção ao menino, que estava com parte das unhas descascadas e parte coloridas, porque gosta de brincar com a irmãzinha. “Mãe, eu nunca tinha sido xingado na vida!”, repetia assustado.

 

“Logo que ele contou, a gente disse que o menino, muito provavelmente, reproduz um discurso que ouve em casa, porque isso não é conversa que uma criança cria na própria cabeça”, a mãe me relatou, entre uma consulta e outra, em entrevista por vídeo.

 

Lígia e o marido começaram a tratar do caso, imediatamente, depois do assédio: “Filho, ele também deve gostar de cor, talvez gostasse de ter cor nos dedos… As pessoas estão à flor da pele nas eleições e a gente sente muito pela sua dor”.

 

No dia seguinte, Matheus já estava bem. A mãe e o pai ainda não estão, naturalmente.

 

“Eu fiquei com um nó na garganta. Mas consegui deslocar, porque tirei o foco do meu filho e botei em outro lugar. O que tenho pensado é: quem vai cuidar dessa criança (a que atacou)?”

 

Em entrevista à agência O Globo, o historiador Boris Fausto explica que o conservadorismo sempre existiu. Mas tomou forma virulenta agora. Para ele, “há uma incompreensão total do que sejam direitos humanos, há temor infundado de que está havendo a destruição da família e uma perversão geral da sociedade.”

 

Apesar do ataque, os pais nunca sugeriram que Matheus deixasse de brincar do que quiser com a irmã. E explicaram que ele não é obrigado a ouvir as agressões, que pode sair de perto. Mas não precisa devolver com violência. “Violência gera violência e gentileza gera gentileza”, lembra a mãe.

 

Ter pais que compreendem a dor do filho e são capazes de ouvir e de buscar saídas, sem atacar o outro, é um privilégio. Nem todos conseguem tentar barrar esse ciclo de violência que, obviamente, tem consequências.

 

“Passei o fim de semana todo dentro de casa, só saí pra votar. Quis preservá-los”, me confidenciou a mãe. Mas não pense que o caso da família Bianchi é um fato isolado.

 

O historiador vai além: “as pessoas estão engolindo Bolsonaro em nome de exterminar o PT” e o fato dele “ganhar tão expressivamente sendo o que é, um adversário da democracia, mostra que foi uma vitória de um monte de coisas como racismo, homofobia, a ideia de confrontação e de violência…”

 

“Depois da história do Matheus, já ouvi muitas outras bizarras. Têm circulado relatos de psicólogas que já estão ouvindo pacientes agredidos – não só crianças. O mestre de capoeira (Romualdo Rosário da Costa, 63, morto em Salvador depois de uma discussão política) era o mestre de uma amiga, que me ligou pra dar a notícia.”, lamenta.

 

Se dependesse dos eleitores da cidade onde os Bianchi vivem, o candidato do PSL teria sido eleito com carta branca, já no primeiro turno, para fazer o que quiser. Ele teve 54% dos votos válidos por lá. Até por isso, a mãe está tendo muito cuidado para falar dessa história.

 

“O Matheus nunca tinha ouvido que ia morrer.” Pra psicóloga, o ataque é reflexo de um discurso de ódio autorizado, em que as pessoas podem falar o que pensam.

 

“Tempos de crise despertam o lado mais sombrio das pessoas”, resume o historiador na entrevista.

 

Em breve, a família do Matheus vai conseguir escapar dessa realidade, realizando um sonho antigo. Eles vão usufruir da cidadania européia e se mudar do país. Em janeiro, começam uma nova vida na Europa, perto de uma amiga em comum, que me falou do caso pelo Facebook.

 

Até lá, a Lígia prefere ter precaução. “Por favor, não coloque os nossos nomes, nem a cidade onde vivemos. Eu tenho medo. Estou tendo muito cuidado para falar dessa história, inclusive com amigos.”

 

Os amigos que vivem no exterior acompanham o que acontece no Brasil com angústia.

Feito nós.

Tudo o que não podemos é retroceder, em nenhum campo.

Independentemente das nossas (eventuais) divergências, precisamos exigir que o desrespeito, a intolerância, o ódio e o preconceito sejam eliminados de vez. Contra quem quer que seja. E, principalmente, na infância.

 

*Em respeito e em solidariedade a essa e a tantas outras famílias alvo de qualquer tipo de violência, Lígia, Matheus e Carolina são nomes fictícios.