foto: Pixabay

 

Era um fim de tarde de um fim de semana de verão qualquer quando encontramos no vestiário do clube uma menina secando o cabelo da irmã, com o maior cuidado. As duas estavam sozinhas e pareciam gêmeas, pela altura. Mas elas são muito diferentes. Uma é especial.

 

Impressionada com o cuidado de uma com a outra, me aproximei com minha filha que acaba de fazer seis anos e comecei a bater papo com elas.

-Oi, meninas. Tudo bem? Quantos anos vocês têm?

-Eu tenho 8 e ela tem 10, respondeu a irmã que estava com o secador na mão.

-E qual o nome de vocês?

-Eu sou a Luiza. E ela é a Lorena.

Lorena não respondeu em nenhum momento, mas estava atenta a tudo. Não precisei perguntar mais nada, para continuar a me emocionar com a cena. Foi quando falei para Lorena, a que têm deficiência intelectual:

 

– Você sabia que você tem uma irmã muito bacana?! Ela é coisa de Deus na sua vida, viu?!

E logo, pra Luiza, a de oito:

– Parabéns por você cuidar tão bem da sua irmã. Seus pais, com certeza, ficam muito felizes com a sua atitude e com o seu carinho por ela.

 

A funcionária do vestiário acompanhava tudo e falou lá da cabine:

– Ela já fez de tudo com essa irmã, viu?! Deu banho, ajeitou as coisas, agora tá secando o cabelo…

 

Gabi seguia admirada, só observando. Dali a pouco, me mostrou que a Luiza, a caçula, estava ajudando a irmã mais velha vestir a roupa. Não me aguentei e fui pra perto delas de novo.

-Luiza, você sabia que a sua irmã faz de você uma menina muito especial?

 

Ela me olhou com uma cara de espanto. Continuei:

-É verdade. Ou você acha que todas as crianças de 8 anos sabem fazer o que você sabe?

-Não!

A cara de satisfação dela eu não consigo descrever. Pouco depois, as duas foram embora. E eu comentei com uma mulher que tinha acabado de sair do banho que fiquei emocionada de ver o cuidado de uma com a outra. Foi quando Gabi nos surpreendeu:

-E eu fiquei de boca aberta!

 

Lorena e Luiza foram compreendidas nos desafios e vistas na beleza e no amor. Isso faz toda a diferença, não só para elas, claro, mas também para cada um de nós. Porque, na verdade, as nossas relações vivem cheias de nós.  Muitas pessoas são incapazes de compreender e de tratar as que são especiais com empatia, com respeito e com  amor.

 

Além dos milhares de especiais que têm síndromes mais conhecidas, 13 milhões de brasileiros têm doenças raras, segundo o guia da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisas de 2017. E eles estão entre nós. Filhos de amigos, de colegas de trabalho… Pessoas que dividem os mesmos espaços, a mesma cidade, as mesmas dores, o mesmo tempo. Mas eles ainda são vítimas de incompreensão, do preconceito e do desrespeito. Boa parte tem a vida comprometida porque não teve o diagnóstico precoce, não consegue ter acesso ao tratamento adequado ou mesmo aos medicamentos que deveriam ser garantidos por lei.

 

Quando a gente entende que são vidas e famílias com desafios muito maiores que os nossos, a gente abre um caminho para apoiar, para respeitar e para amá-los. É quando começa, então, um movimento para desfazer os nós e criar laços de amor que podem nos conectar e nos transformar. É de fazer sorrir muitos corações.

 

*Luiza e Lorena são nomes fictícios.

*Tem #paposemreceita sobre os raros entre nós, no Instagram. E eu achei que também valia a pena compartilhar por aqui. Vem pro @maesemreceita também! Vem, gente!