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“Mamãe, será que ela não gostou de mim porque eu tô de óculos?”

“Filha, você nem estava de óculos quando foi lá chamá-la pra brincar com suas pazinhas.”

Foi quando ela se deu conta de que, realmente, naquela hora, brincando na areia de Toque Toque Pequeno, não estava usando. Era o segundo dia dos novos companheiros.

 

 

Antes disso, ela já tinha me falado, naquela manhã e no dia anterior, que estava com vontade de chorar. Sem nenhum motivo aparente. Mas eu comprendi, imediatamente, que o sentimento dela era igualzinho ao que eu tive quando ouvi o diagnóstico sobre a hipermetropia: pura insegurança.

 

 

“Óculos pra tudo! E a gente volta a se ver em três meses”, a médica sentenciou.

Na hora, me segurei! E senti que Gabi, no meu colo, mas de costas pra mim, também ficou apreensiva, mesmo tendo dito algumas vezes com a pupila dilatada que queria usar óculos. Como em outras situações delicadas, ela também só observou a reação das pessoas em volta, antes de agir. Já que eu estava “encarando tudo numa boa”, ficou muda.

 

 

Afinal, quais eram os meus receios? Do que eu tinha – ou ainda tenho – medo? De que ela não pudesse mais correr, pular e dar cambalhotas como sempre fez? De que a beleza do rostinho ficasse ofuscada? Ou de que ficasse feia aos olhos dos outros?

Talvez o medo mais forte fosse de que os óculos mudassem a personalidade dela e a tornassem frágil, assim, de repente.

 

 

Aos poucos, tenho visto que, claramente, ela continua igualzinha, uma menina inventiva, inteligente, doce, perspicaz, esperta e aventureira. Mas a insegurança, a minha e a dela, não foi eliminada num piscar de olhos.

 

 

Quatro dias depois da estreia dos óculos, na praia, às vésperas de voltar para escola, ela demonstrou insegurança sobre como seria acolhida.

“Mamãe, eu tenho vergonha.”

“Por que, amor?”

“Eu não quero ir de óculos pra escola, porque eles não vão gostar de mim.”

Meu coração partiu, mas eu estava convicta:

Filha, veja só, falei, com a segurança de quem sabe que há coisas muito mais delicadas na vida. Você gosta do Nino? Mesmo que ele ainda fale algumas palavras erradas?

“Sim, porque ele é fofo!”

“Então, você também é fofa!”

Mas uma mãe preocupada com a autoestima da filha, não para por aí.

“Você tem um bom coração. É gentil. Todo mundo gosta de você. Você é esperta, carinhosa. É claro que vão continuar a gostar de você!”.

Como ela sempre me surpreende, ouviu, pensou e constatou:

“Eu acho que a Madu vai gostar de brincar comigo, porque ela me acha fofa.”

Meu coração sorriu.

“Eu também acho, filha. Mas o mais importante é você contar pra mamãe o que você tá sentindo. Como você se sentiu, na escola. Bem, não tão bem… Se ficou feliz, triste. Conte sempre pra mamãe. Você é um pedaço da mamãe fora dela. E a mamãe quer poder saber o que está passando no seu coração. Tá bom, filha?!”

Dormiu.

 

 

Foi mais uma sementinha na construção da autoestima dessa menina que sempre foi a mais vaidosa que eu já conheci – ama passar meu batom, blush, brilhinho (iluminador) e até pentear a sombrancelha – e que, agora, usa óculos.

 

 

Antes da escola, Gabi foi pro balé com os óculos rosas, modelo que ela mesma escolheu. Eu preparei o terreno, avisando na frente dela, com delicadeza, que tínhamos novidade. Recebeu elogios carinhosos da professora, que disse que teve um par igualzinho na infância. Depois, ouviu da monitora da brinquedoteca um:

“Como você ficou gatinha com esses óculos, Gabi!”

Irradiou alegria, sem falar nada. E disparou, só para mim:

“Eu achei que ninguém fosse gostar!”

 

 

Desde então, tenho percebido que os óculos que fizeram “tudo ficar lavadinho”, como ela descreveu numa fofura irreproduzível, também mudaram a minha visão. De fato, não é o que a gente tem por fora que muda o que somos por dentro.

 

 

*E tem vídeo sobre autoestima. Só dois minutinhos.

Assista e, depois, diga o que pensa.