Tinha tudo para ser uma fake news daquelas que têm efeito arrasador. Mas não. É fato real. O presidente afirmou em entrevista que não teve ditadura no Brasil. Pior: comparou o  período em que 423 pessoas foram mortas ou desapareceram com probleminhas do casamento. Assim: “Não foi uma maravilha. Regime nenhum é. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem probleminha.”

 

Sinceramente, como é que alguém consegue comparar as dificuldades que a gente enfrenta numa relação em que há livre arbítrio, entre pessoas que, muitas vezes, pediram a benção de Deus, com um período de exceção cheio de assassinatos, perseguição e torturas, inclusive de mulheres grávidas? Gente do céu!

 

Seria só (mais) uma irresponsabilidade, não fosse o desrespeito completo com as famílias das vítimas e com as vítimas que ainda estão vivas. Mas o problema não para nas afirmações. No Brasil de 2019, foram distribuídos convites para comemorar a “Revolução Democrática de 31 de março de 1964”. Isso sim é que pode se chamar de doutrinação ideológica.

 

Ah, mas tem um grupo de pessoas que vai dizer que doutrinação ideológica é coisa de governos passados. Vai dizer que as afirmações do atual presidente não são falsas. Peraí?! Precisa ser falso pra não ser verdadeiro? Até como pais a gente sabe que crianças podem omitir informações que induzam a uma interpretação incorreta. Nem precisa mentir. Pai e mãe fazem o que nessa hora? Corrigem e orientam, certo?!

 

Pois bem, especialistas apontam que ao dizer que não houve golpe, nem ditadura, Bolsonaro adotou meias verdades e fez omissões pra comprovar as teses que defende. Por isso tanta gente pode achar que o que ele disse é verdade.

 

O fato é que estamos vivendo tempos malucos. Tem gente que pegou ódio de jornal, que não suporta mais notícia apurada. Não confia mais no jornalismo profissional… Só em WhatsApp ou em vídeo de YouTuber. Vai vendo… Aliás, tem gente que acha que está tudo tão perigoso que, por isso, é melhor dormir armado.

 

Nessa nova era, tem muita gente também que acha que intelectual não vale (mais) nada, que estatística não presta (mais), que dado histórico também não. Eu fico pensando como essas pessoas conviveram tantos anos com a realidade e, de repente, botaram pra fora uma perspectiva que impressiona.

 

Vivemos um tempo em que, pra tudo, o que vale são as versões nas quais a pessoa é capaz de se apegar. Alias, só vale aquilo em que ela quer acreditar. Dane-se a história. Danem-se os fatos.

 

Uma reportagem de hoje do estadão.com mostra que um grupo de mais de cem intelectuais de diferentes países assinaram uma carta pública de repúdio à ordem de Jair Bolsonaro para que os quarteis comemorem os 55 anos do 31 de Março de 1964.

 

Na lista de quem assinou tem sociólogo, historiador, vencedor do Nobel da Paz, ativista de Direitos Humanos, entre outros estrangeiros. Mas pra um tanto de gente, esses títulos aí não têm mais valor.

 

O apoio aos intelectuais foi pedido pelas vítimas e familiares de vítimas da ditadura no Brasil. Essa que existia desde 1964 e, de repente, sumiu de discursos. Antes da lista, o Ministério Público – aquela instituição que já foi aclamada e ficou mais conhecida depois da Lava Jato – já tinha recomendado que as força armadas se abstivessem de promover ou tomar parte de qualquer manifestação pública, em ambiente militares ou fardados, em comemoração ou homenagem ao período de exceção instalado a partir do Golpe Militar. Pois bem, nem tudo que passou a ser permitido convém!

 

Olha, teve uma época em que a gente podia falar só sobre os desafios da maternidade. Mas a maternagem sempre esteve imbuída da história. De valores e de ideais históricos. Do jeito que as coisas andam, daqui a pouco vão querer mudar os livros de história. Vamos ter de continuar falando disso, para o bem dos nossos filhos.