Tadinho do Ernesto. Tadinha da Gabi.

foto: Pixabay

 

O Ernesto veio passar três dias aqui em casa com a Gabi, que tem oito anos e o ama, e virou uma missão levá-lo pra passear. No primeiro dia, ela e o pai o levaram para o bosque. No outro, foram para o gramado, subiram em árvore, brincaram no pula-pula. Aí, no último dia, véspera da ida do Ernesto pra casa de um outro amigo, os três foram ao cinema. Faltava pouco para tudo dar certo, quando…

 

Gabriela chegou em casa desamparada, chorando e se sentindo responsável pelo desaparecimento do Ernesto que, coitado, já é vítima de um verdadeiro disse-que-me-disse e é desprezado por um tanto de gente. Olha, não fui eu que inventei essa história, está registrado pra todo mundo ver.

Meu coração ficou partido com a violência.

 

Lembro como se fosse hoje do dia em que “perdi” a minha bola da Moranguinho. Era um presente da minha avó madrinha. Eu devia ter uns 8, 9 anos. Levei a bola pra brincar na garagem aberta do prédio, que só tinha três andares. Mas o Rodrigo chutou a bola tão forte, mas tão forte, que ela voou até cair no telhado de um lote que ficava na rua debaixo e vivia fechado. Subindo no muro para dar uma espiada, dava para ver a bola lá embaixo. E sofrer… O Rodrigo não entendeu a minha tristeza. Aliás, muita gente não entende quando a dor não é em si próprio. Pois, ele dizia indignado que ia comprar outra bola, sem compreender que eu gostava mesmo da que ganhei de presente e que tinha uma história. Ele nunca me deu outra, nem eu nunca vi igual. Era linda, acredite.

 

A lembrança me fez entender exatamente a tristeza da Gabi, enquanto o pai dizia – na melhor das intenções – que iam arranjar outro.

⁃ Filha, eu já te contei a história da minha bola da Moranguinho? Eu sei exatamente que nenhum outro Ernesto vai ser como aquele. Você foi vítima de uma violência e eu sinto muito por isso! Mas posso te dizer uma coisa? A mamãe espera que, como aconteceu comigo, aconteça com você: Que uma hora essa tristeza passe e você se lembre dessa história sem sofrer.

Superação é uma benção na vida! Por isso, a gente pede pra Deus cicatrizar as feridas dos nossos corações.

E é impressionante que, mesmo que a gente não queira sentir dor na vida, os dramas que enfrenta – por menores que sejam e ainda bem quando não são graves – podem servir para nos ensinar a sermos melhores. Ali, senti que a minha compreensão real fez bem pro coração da minha filha.

 

Bom, tem coisas que mesmo sem termos vivido algo parecido, a gente tem que sempre tentar se colocar no lugar do outro pra ser capaz de acolher, sem piorar o sofrimento. Isso vale pra dentro e pra fora de casa, né?!

 

O outro capítulo difícil foi Gabi ter que voltar pra escola e encarar os colegas depois do que aconteceu com o Ernesto que, transformado em boneco, tinha ganhado as características que as crianças escolheram. Claro que fiz, por escrito, um relato detalhado do que aconteceu, pra não gerar incompreensão. Afinal, o Ernesto já tinha ido para casa e passeado com colegas e iria para a de mais alguns. (Quem achou que ele fosse um gatinho?)

 

Será que alguém aí está se perguntando como o coitado desapareceu?

Então, depois da sessão de cinema, Gabi foi ao banheiro feminino e o pai ficou na porta aguardando. Ela apoiou o boneco em cima da prateleira da cabine, usou o banheiro e foi embora. Quando estava saindo, se lembrou do Ernesto. Deu meia volta e voltou. Só que aí, quando entrou, já havia alguém dentro da cabine. Gabi conta que a pessoa deu descarga, mas não saía. Quando, finalmente, a mulher deixou a cabine, o Ernesto já não estava mais no lugar onde ela tinha deixado!

 

“Choro imediato e pânico”, contou o pai , que ouvia do lado de fora e quis ‘invadir’ o banheiro. Uma funcionária dos serviços gerais tentou ajudá-la, mas não conseguiu. Sem entender ainda o que tinha acontecido, Marco viu a tal mulher sair indiferente, mas não viu o Ernesto, que estava escondido. A ladra conseguiu escapar!

 

Na escola, coordenadora e professora propuseram juntas em classe fazerem um cartaz “Procura-se” e levar no shopping. Gostei. Afinal, a ladra pode ter mudado de ideia e abandonado boneco em qualquer canto.
Será?!
De qualquer forma, a escola garantiu que vai fazer um boneco novo igualzinho e o Ernesto volta em breve, pra alívio das crianças.

Coração de quem ama fica apertado quando criança sofre. Que a gente saiba ser colo e equilíbrio pra ajudá-los a seguir adiante, mesmo quando tem dúvidas sobre o que fazer. Que o Ernesto apareça e que Deus nos livre e nos proteja do pior!

 

Ah, quem aí conhece a história do Ernesto (FRANCO, Bladina. Companhia das Letrinhas, 2016)

Uma ótima sugestão de leitura infantil, aliás!
Lá no @eupriscilladepaula, vou deixar registradas algumas fotos lindas dos passeios que Gabi fez com ele, que foi protegido de máscara, e do quanto eles foram felizes juntos. ❤️