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Meu filho de 11 anos anda comendo as beiradas das almofadas do sofá. Sintomas da pandemia.
Mas já descobri que ele não é o único. O filho da minha amiga vizinha comeu dois cabos de fone de ouvido nos últimos meses. E, outro dia, ela pegou o menino, um ano mais novo que o meu, roendo as unhas do pé! Sorte que o meu não tem flexibilidade pra isso, senão…

 

Era uma troca de pequenas confidências de desespero, mas acabamos rindo. Já pensou roer até as unhas do pé?! #TáTendo porque não está fácil não!

Ainda assim, no contexto geral, esse é o menor dos problemas. Outro dia, uma outra amiga contou que o filho de 12 está tendo várias dificuldades. Diante da exposição excessiva às telas, está dependente dos jogos, enxergando pior e, de super inteligente com o QI acima da média, está correndo o risco de repetir o ano.

 

É duro quando a responsabilidade deles é só estudar e isso acontece. Mas, ao mesmo tempo, é compreensível. Esses três casos serviram como uma amostragem suficiente pra me fazer lembrar que é pura ilusão achar que as coisas estão mais fáceis na casa dos outros.

 

Eu mesma sou fera em imaginar que todas as crianças – exceto os meus filhos – estão comprometidas com as aulas on-line, conseguem se concentrar durante horas em frente ao computador e cumprem as atividades com louvor. Só que aí, enquanto lamento que aqui em casa não tem sido assim, penso nos relatos das amigas e lembro que as crianças estão sendo cobaias de uma experiência que nunca existiu. Já são sete meses de aulas online na infância.

 

As aulas presenciais recomeçaram há duas semanas, aqui no Rio. Mas ainda num esquema híbrido. Os meus só vão pra escola duas vezes na semana. Gabriela, de sete anos, depois do primeiro dia, me disse na saída que não queria voltar pra escola: “Justo eu, mãe, que gostava tanto da escola!”
A justificativa? Depois de tantos meses em casa, ela não viu graça em estar lá com pouquíssimos colegas e com tantas restrições. “Não pode fazer um tanto de coisa e a máscara molha!”, sintetizou. E eles trocam.
Usar máscara é um exercício de resistência.

 

Em casa, só Deus sabe como as coisas da escola andam. Ela já não tem mais disposição. Gosta das lives diárias, mas morre de preguiça de fazer o resto. Tirando os vídeos com histórias, desanima. Já o Rafael vira e mexe está me procurando pela casa ou arranjando coisa pra fazer, enquanto “acompanha” a aula.

 

A sensação é de que eles estão fazendo tudo nas coxas, sem se comprometer. Ainda bem que tem o pai, que intervém e acompanha ao chegar, porque eu, que passo quase toda as tardes com eles, já não tenho mais condições de fazer uma abordagem fofa pra tentar envolvê-los nas atividades como eles deveriam ou como eu gostaria que estivessem, super engajados, fazendo tudo sentadinhos, sem atraso e caprichado.

 

Sonhei quando achei que a caçula pudesse se interessar pelos livrinhos de caligrafia que comprei lá em março, depois dos primeiros 15 dias, e quando ainda achava que a pandemia ia durar, no máximo, um mês.

 

Cidade nova, casa nova, amigos novos, saudades de tudo e pandemia na adaptação. Não falta inteligência, mas falta energia e disposição pra dar conta de continuar a cumprir as obrigações escolares dentro de casa, no novo modelo de escola e seguir em frente em meio a tantas mudanças neste ano atípico.

 

Só não estou roendo as unhas junto porque continuo na análise. Vou perder as almofadas, mas não perco a noção. Em sete meses de pandemia, estamos todos com algum sintoma da exaustão.

Eu quero a vacina!

 

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