Parece que todo mundo tem uma história sobre fuzil. 

foto: Pixabay

 

Eu estava voltando do cinema com a Gabi, minha filha, no fim de semana (tinham 6 pessoas na sessão) e um carro da polícia parou do nosso lado no semáforo. As janelas estavam abertas e vi um fuzil com bico pra fora, no lado do carona. Só não tomei um susto na hora porque não foi a primeira vez. 

 

Lembro bem do choque que tive na primeira, porque demonstrei: “Como é que pode a polícia andar assim, com arma pra fora do carro? Que absurdo, é um perigo!” 

Surpresa de forasteira, que mora na bolha, logo entendi. Afinal, meus colegas cariocas das equipes de reportagem — muitos são moradores de comunidades —  não hesitaram: “A polícia tem que andar assim, senão morre!”.

A que ponto chegamos… O fuzil tem que estar sempre à mostra. Aliás, quanto mais fortes e poderosos, mais se mostra. Policiais e criminosos.

 

Anteontem, em plena sessão de fisioterapia, a Pat, estagiária, me contou que, quando estava grávida, um bandido botou um fuzil na testa dela quando ela chegava na comunidade onde morava, ao voltar da faculdade à noite. “Quase pari!”, lembrou. Se fosse eu, não sei se estaria aqui contando a história. Tremo só de pensar.

 

Eu, cho-ca-da, perguntei por que (como se houvesse justificativa) o homem fez isso. “Não sei, ele devia estar louco. Só sei que eu fechei o olho e não me lembro de mais nada!”. A memória dela apagou. Mas não parece que traumatizou. 

 

Daqui a alguns dias faz um ano e meio que eu cheguei ao Rio de mala e cuia com marido e filhos pequenos e já perdi as contas de quantos fuzis vi. Aliás, a violência urbana, fruto de inúmeros problemas sociais, era uma das coisas que nos fazia hesitar em vir com crianças. Antes do Rio, eu mesma só tinha visto esse tipo de armamento em filme de guerra. Mas aqui eles estão em todo lugar… É surreal.

 

O tempo passou e ainda me impressiono toda vez que me deparo com um fuzil. Só que eu já entendi que, infelizmente, parece que o fuzil já foi normalizado no Rio. Quando não estão pra fora, prontos para o uso, os fuzis estão empunhados nas mãos de policiais, sempre de preto, feito ninjas, até num calor de 45 graus. No trânsito, nos acostamentos, nas patrulhas de bairro, até na padaria, quando param pra tomar café. Toda vez que vejo sinto incômodo, indignação, surpresa e tristeza. É difícil definir, mas é que o fuzil é a arma mais simbólica para triste realidade de troca de tiros em que morrem policiais e, em muito maior número, pobres, vítimas das chamadas balas perdidas que, de perdidas não têm nada. Afinal, estão sempre encontrando alguém. 

 

Antes de nos mudarmos, o país estava consternado com a história da Aghata, baleada na kombi ao lado da mãe. Lembra? De lá pra cá, o que mudou? Na verdade, parece que está cada vez pior, afinal, quase todo dia tem família dilacerada, como a da Kathlen, de 24 anos, grávida, de três meses, que morreu esta semana com um tiro de fuzil. É inacreditável e revoltante. 

 

“Lá onde eu moro, quase não tem mais pistola. Os bandidos estão todos armados com fuzil.”, me contou um colega, Waguinho, pai de uma menina de seis anos. Ele mesmo já segurou um numa festa, anos atrás, vítima de uma brincadeira de mal gosto. “O cara botou o fuzil na minha mão e eu não sabia o que fazer com aquilo, morri de medo. Imagina se começa a sair tiro na festa, o que que vai fazer? Tentei esconder, a menina que estava comigo ficou nervosa… Fiquei desesperado!”.

Parece que aqui todo mundo tem uma história sobre fuzil. 

Outro dia, eu estava gravando no canil da coordenadoria da Polícia Civil e a arma usada pelos adestradores no treinamento com cães farejadores era um fuzil. Ali, bem do meu lado, olhei e me dei conta de que fiquei impressionada, mas também desconfortável. 

 

Até entre colegas, toda vez que tem tiroteio e mortes, escuto coisas assim: “Infelizmente, não tem mais jeito, não tem como resolver! Precisa de uma mudança geral!” Pode ser ingenuidade a minha – e, talvez, seja mesmo, mas não me conformo!  Especialistas em segurança pública, feras, têm o passo a passo para resolver e apontam o que pode ser feito de imediato. A solução estrutural dá mais trabalho e exige vontade política, claro. Mas dá para aceitar que, na falta de tudo, o único braço do Estado que chega efetivamente a milhares de comunidades seja apenas a polícia e fortemente armada?

 

Pra muitos de nós só dá para fazer alguma coisa de dois em dois anos. Pouco, melhor que nada… Mas não dá pra perder a capacidade de, pelo menos, se indignar. Nunca será normal fuzil rolando solto. 

 

Se há anos é pobre que mais morre – imagina um tiro desses tirando a vida de alguém no Leblon? – essa cultura da bala e do fuzil afeta, na verdade, a segurança e a qualidade de vida de todos nós. Tem impacto na vida emocional, no que a gente faz na cidade e nos sonhos que temos individualmente e como povo, como nação. A cada bala “perdida” dá-se um tiro de fuzil na nossa esperança. 

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, que já foi @maesemreceita no Instagram. Vem, gente!