Praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Foto: Sergio Moraes/Reuters – 8/7/2019

 

Meu coração está tomado pelas mudanças que estão por vir. Tenho me permitido sentir. Aliás, tenho sido capaz de acolher os meus sentimentos e os dos meus filhos, que também estão mexidos.

 

Serão grandes mudanças. Talvez, todas as outras tenham me preparado para esse momento. Afinal, sou filha de pais separados e já morei fora e em outras cidades algumas vezes, antes de vir pra São Paulo, em 2005. Só que agora é diferente: é uma mudança repentina de cidade, com duas crianças. Uma de 10 e outra de seis, que prefeririam não ir.

 

Esses dias me dei conta de que meu filho está com sintomas parecidos com os meus. Frio na barriga não descreve bem o que estamos sentindo. Estou aqui tentando achar uma forma de definir os sentimentos que têm surgido, desde a surpresa com a transferência repentina do pai deles. Talvez seja mais fácil ir escrevendo…

 

Primeiro, veio aquela sensação: “Meu Deus, então é isso?! Mas morar no Rio, hoje em dia?” Bateu medo, claro. Sinto dizer, mas meu primeiro pensamento foi sobre a violência. Policial, inclusive. Falar do Rio, infelizmente, me faz pensar em bala perdida e tiroteio. A praia, o ar puro, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, a beleza “do Leme ao Pontal” e o alívio de não ter mais invernos rigorosos no ar poluído são pensamentos que vieram depois. Isso é uma bolha, a gente sabe. Mas meus filhos não conhecem meus pensamentos, obviamente.

 

Além do mais, eles têm sorte por não estarem expostos ao nível da violência que atinge as crianças que vivem nos morros e parte o coração de quem tem humanidade. A tristeza aqui na bolha é pelo que vão deixar pra trás. Hoje, o mais velho me perguntou, no caminho da escola: “Mãe, podemos passar as férias em São Paulo?” Férias em SP… Acho lindo o amor que a gente constrói pelo lugar onde nascemos, quando a vida é gentil.

 

Se pra nós, adultos, não é fácil encarar tudo o que vamos deixar, imagina para eles?! A casa, a escola, os amigos, os campeonatos de futebol… Do lado materno, fica a rede de apoio que, depois de tantos anos pra construir, hoje, funciona bem. Tem ainda uma pequena parte da família, que acaba de crescer… O pediatra, a ginecologista, a psicanalista e a Marilene. Essa, aliás, só pensa em voltar pra Minas, de tanta saudade da terrinha. Realmente, não é fácil deixar os laços que foram construídos e tudo o que a gente ama.

 

Mas quando a gente cresce, está sempre encarando um ‘bola pra frente’. E eu entendo que quando a experiência é boa para os pais, costuma ser boa para os filhos. Tem outro aspecto: se você olha para conjuntura do país, você sabe que essas aflições são pequenas diante de tantos desafios que milhões de brasileiros enfrentam. As mudanças são desafiadoras, mas confesso que respiro aliviada. Até outro dia, estávamos atravessando um deserto que parecia não ter fim. Graças a Deus, passou.

 

Para além das nossas apreensões humanas e naturais, eu sempre tive muita coragem. E curiosidade.  Também tenho fé de que será uma oportunidade transformadora, até profissionalmente. Estou convencida de que Deus está cuidando de tudo.

 

“Ah, mas como você pode ter tanta certeza assim?”, uns podem pensar. Outros: “Como pode uma pessoa esclarecida, que faz análise, acreditar assim em Deus?” Uma coisa não elimina a outra, já entendi. E, definitivamente, não sou do tipo que bitola na fé. Ou que confunde as obrigações e responsabilidade humanas, com o poder de Deus. Como diz a minha analista, numa sessão recente, “a fé, às vezes, confunde. Mas você avançou”.

 

Com muita clareza, escolhi me transformar numa mulher de fé. Estou há tempos num processo de comprometimento, de entrega e de exercício de fé. Essa busca é fruto de um vazio espiritual que eu sentia e de um cansaço gigantesco diante dos mesmos desafios. Certeza que milhares de pessoas se sentem assim. Sem fé, agora, eu nem ia.

 

Tijolinho por tijolinho, cá estou me preparando para a mudança, depois de um longo deserto. A vida não é fácil, há coisas muito mais duras, eu sei. Mas a travessia que enfrentei foi fundamental para que eu compreendesse que o Deus em quem confio não responde necessidade. Responde fé.

Então, sigo firme. Confiando que, em breve, nossos corações vão se alegrar. E o mais importante: que Deus vai nos proteger dessa loucura em que o Rio se transformou.

 

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