Purgatório da Beleza e do Caos.

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Nunca imaginei que eu ia viver pra ver, em 2021, a música emblemática da Fernanda Abreu ser superada, justo na temperatura. De resto, é impressionante e triste que a letra seja tão atual. Mas a vida no Rio tem bossa, apesar de tudo e mesmo na pandemia.

 

Morar aqui era um sonho de criança. Dos melhores que eu e a Dani, minha melhor amiga da infância, tínhamos. A gente sonhava em ser artista e trabalhar na televisão. Durante anos, queríamos ser paquitas da Xuxa. Era a década de 80 e, enquanto sonhávamos, nós dizíamos que, quando tivéssemos nove anos (super crescidas), fugiríamos de BH pra cá. A gente não sabia que – sem youtube, reality ou família que apoiasse a vida de artista, seria praticamente impossível. Melhor assim.

 

Não virei artista, mas virei jornalista. Era um caminho possível pra entrar na televisão e realizar uma parte daquele sonho de criança, ainda que sem o glamour e a leveza. Ô vontade! Mas viver no Rio, com o passar dos anos, foi se mostrando algo irrealizável. E diante do aumento da criminalidade e da violência urbana, era livramento. Como morar na cidade tomada pelo tráfico e pela milícia, onde a arma básica parece ser o fuzil?

 

Só que aí, Deus nos surpreendeu e abriu uma porta com vista pro mar! E a gente veio, em família, com dois filhos que completam 8 e 12 anos. Vivemos numa bolha, numa maravilha. Mas, como repórter, diariamente saio dela para contar histórias da vida real de pessoas que vivem no purgatório do caos.

 

Os 45 graus que enfrentamos a duras penas durante o expediente, ao sair do ar condicionado, é o dia-a-dia de centenas de milhares de pessoas que não têm alternativa para escapar das mazelas do Rio. Eu poderia escrever mais sobre as desigualdades cruéis que me fazem sofrer por não conseguir ajudar a transformar a realidade de verdade, mas vou preferir me concentrar no que o Rio me trouxe de bom. Foram muitas coisas!

 

Eu já vinha num trabalho intenso de análise para ser capaz de encarar a vida com mais leveza, mesmo na travessia do deserto, na crise profissional, financeira e conjugal, bem antes da mudança. Só que, agora, além da leveza interior, tem o lado solar. 

 

Num calor desses que, muitas vezes, beira o insuportável, abandonei a escova, me reencontrei com os cachos, abandonei as botas, as blusas de manga comprida, o amor intenso pelos tons nudes e mais um tanto de coisa, além da vergonha de… Melhor nem dizer. Pra quê?!

 

O reencontro com o cabelo natural à prova de suor é um capítulo à parte no meu desabrochar de novo.
Coincidentemente, olhando de fora, a impressão que tenho é de que as mulheres do Rio sabem lidar melhor com a suas imperfeições ou com as suas frustrações. 
Elas parecem não estar nem aí pro que pensam delas.

 

O fato é que esse primeiro ano no Rio me trouxe de volta algo que eu tinha aprendido bem no meu intercâmbio, aos 17 anos, e fui me esquecendo com o passar do tempo: a felicidade de habitar a minha própria pele. Imperfeita, mais queimada, mais manchada e um pouco mais envelhecida, é verdade. Mas ainda assim, a minha. Do jeitinho que sou. Isso eu não quero perder nunca mais! Sorte que não derrete no calor!

 

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