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Escrever para falar um pouco sobre a nova vida no Rio me faz pensar nas crônicas do Ruy Castro, incomparável. Amanhã faz um mês que cheguei à cidade que é naturalmente maravilhosa, mas pra onde milhares não querem nem vir por medo. Afinal, quase tudo que tem acontecido no Rio é assustador. A gente cansa de ouvir, mas a imprensa não inventa, só mostra fatos, né? Eu mesma só decidi vir de mala e cuia com dois filhos, acompanhando o marido que foi transferido, porque me transformei numa mulher de fé.

 

Mas tem gente que acha que a segurança está melhorando. Foi o que disse ontem o pneumologista que está tentando curar a minha bronquite causada pela poeira da mudança e por tanto ar condicionado gelado e/ou sujo – aliás, como faz pra manter a saúde tendo que congelar a casa para enfrentar o verão no Rio 40 graus/ cidade maravilha/ purgatório da beleza/ e do caos? Eu fiquei impressionada, quando ouvi o médico falar sobre a violência. Como poder achar que está mais seguro, se vira e mexe tem até criança morrendo com tiro?

 

Essa avaliação, certamente, só é possível para uma parte da população que vive numa bolha. Aqui, na minha bolha, por exemplo, a segurança anda ótima. Mas é sair do condomínio para ver o choque de realidade a cada cruzamento. Jovens fortes e bonitos, que poderiam ser atores de novela, crianças, adolescentes e até famílias inteiras vendendo balas, paçoca ou pedindo dinheiro nos semáforos. É infinitamente mais gente do que nas áreas nobres de SP. Eu fico mal, porque sei que são pessoas cheias de sonhos e cheias de garra, mas que não têm oportunidade, educação de qualidade, nem perspectiva de uma vida melhor. Como esperar que essas pessoas – adultos e crianças, como os nossos filhos – não cedam à criminalidade, diante de uma vida com tantas privações? Se a cidade, estado e país não cuidam como é preciso, não tem futuro.

 

Pra eles, falta tudo. Aqui, na bolha, está faltando é água mineral. Desde que começou a atual crise hídrica, não consegui encontrar nos supermercados. Aliás, por essa eu não esperava, depois de enfrentar a pior crise hídrica em SP, alguns anos atrás. Se bem que isso vai acontecer mais vezes e em mais lugares, sem a preservação dos recursos naturais como há tempos recomendam e alertam os especialistas. Eu confio na UFRJ, que diz que o esgoto bruto jogado em afluentes do rio Gandu, onde é feita a captação de água para o abastecimento de 9 milhões de pessoas, é o motivo para a água estar turva e fedida nas torneiras e filtros de centenas de bairros da Grande Rio. Dureza! E nenhuma certeza sobre quando melhora.

 

Agora, pensa comigo: Se nem o saneamento básico que tem impacto na saúde, na escolaridade, na empregabilidade e, portanto, na segurança pública, é tratado como prioridade, como é que vai resolver o resto? 

 

Bom seria se os serviços públicos funcionassem como o sistema de guincho de carros, que dizem que é privado aqui no Rio. Nem em SP, vi igual. É eficiente até quando não precisa, afinal, dá um dinheirão. Só não sei se vira investimento depois. O pneumologista contou rindo que teve o carro rebocado na porta da garagem da própria casa, no Recreio. O meu, estacionado pelo meu marido com alguma irregularidade em Ipanema, foi guinchado no último domingo. Mas se você for resgatar o veículo no pátio do Detran, num lugar longe à beça, vai encontrar um tanto de cidadão do bem revoltado. Tem gente que confessa que “sabia que não podia estacionar no lugar, mas só ficou cinco minutinhos” parado aonde não devia. Sei. E assim segue a vida… Quase todo mundo pensando no próprio bem estar, tentando livrar a própria pele e olhando para o seu quadrado, sem se preocupar com quem está ao lado. Mas isso não acontece só no Rio não. 

 

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