Cá estou eu lembrando mais uma vez do novo fenômeno da Disney, o Rei Leão.
É uma história que rende muitos paralelos com o que vivemos hoje no Brasil. Se você viu o filme, vai se lembrar de que o leão Scar comandava o reino fazendo o que acreditava ser correto. Até a terra ficar seca, sem matas, nem rios. Até ficar numa aridez sem cor, destruída.

 

Pausa no filme. Estamos no Brasil de 2019. Infelizmente. Não é ficção.

 

“Moro na capital Porto Velho e este ano foi um dos piores em fumaça. Aqui no bairro vizinho, de repente começou o fogo num campo enorme. Estamos gripados e tossindo há quase dois meses. Vivo com a casa fechada, devido à fumaça!”, desabafou Ana Duran, mãe de dois, que me acompanha pelo Instagram.

 

A realidade é dura, mas, até outro dia, tinha quem se recusasse a acreditar que uma parte importante da floresta amazônica está desaparecendo mais rapidamente. A informação do governo era de que imagens de satélite e dados de institutos importantes estariam sendo manipulados. Não era como a ciência e as estatísticas revelavam. Até o ex-presidente do INPE estaria a serviço de uma ONG. Essas instituições que passaram a ser demonizadas.

 

Foram mais de duas semanas de negações sobre o aumento do desmatamento.
Até o dia virar noite em São Paulo! Meteorologistas de diferentes institutos privados, que trabalham inclusive fornecendo dados climáticos para empresas do agronegócio, afirmaram que o fenômeno foi motivado pela chegada de uma frente fria, associada à mudança dos ventos, que trouxeram a fumaça da região amazônica para a maior cidade do país. Impossível não admitir que há algo muito sério acontecendo no meio ambiente.

 

Naquela segunda-feira, no grupo de whatsapp do futebol noturno das crianças, as mães logo se mobilizaram para cancelar a ida ao treino. “Tempo doido, gelado… Melhor não irem!”, pensamos. Até ali, a preocupação era só com o início de gripe dos miniatletas. Ninguém tinha lido ainda sobre o que estava por trás do ar mais poluído do que o habitual, na terra da garoa.

 

Sem poder negar as nuvens que “desabaram” sob a cabeça de mais de 13 milhões de pessoas, registradas por câmeras de TV e pelos milhões de brasileiros que publicaram fotos e vídeos nas redes sociais – essas sim, confiáveis, a versão sob o desmatamento mudou. De repente. Você percebeu, né?

 

Diante da inegável realidade, o governo passou a reconhecer o problema. Ainda não no nível real. E não com índices ou estatísticas. Mas com sentimentos. Para o presidente, o aumento das queimadas pode ter sido causado por membros de ONGs pra prejudicar a imagem dele e do governo.

 

Gente do céu. Do céu cinza e fechado ou do céu azul de brigadeiro. Qual a chance da turma do Simba, que ama a natureza, que leva uma vida em função da floresta e faz tudo para cuidar do meio ambiente, botar fogo até em áreas de preservação só para sacanear o Scar?

 

Peraí. Talvez você acredite que muitas dessas ONGs, que têm braços europeus, não têm interesse que o Brasil seja competitivo com os recursos minerais que podem ser retirados da Amazônia. Ou seja, pra você, algumas ONGs fingem que são do bem, mas, na verdade, querem sacanear o nosso país. Mesmo que isso signifique por em risco um dos maiores biomas do mundo e prejudicar o ar do planeta.

 

Só tem um detalhe, para quem pensa assim. Sessenta por cento dos focos de incêndios, desde janeiro, são em áreas privadas registradas no Cadastro Ambiental Rural do Brasil. Mas alguém aí viu dono de terra denunciar invasão e incêndio criminoso? Pelo contrário, o que teve foi o ‘Dia do Fogo’, promovido por fazendeiros no sudoeste do Pará. Dá um google para entender.

 

Entre janeiro e o dia 19 de agosto, houve aumento de 83% das queimadas em relação ao mesmo período de 2018, segundo dados do INPE. Mas quem é de ONG, quem é de direita, de esquerda, de frente e verso, do bem e do mal já percebeu que hoje não tem notícia ruim, revelação bombástica, denúncia importante ou críticas com fundamento que provoquem grandes mudanças.

 

Então, pra quem entende que o negócio é sério, pra quem reconhece que os quase 300 milhões de reais que a Alemanha e que a Noruega cortaram para ações de combate ao desmatamento vão fazer muita falta, o jeito é confiar que a pressão internacional vai ter efeito.

 

O céu está fechando por aqui e no exterior. A França, por exemplo, já convocou uma reunião de emergência do G7 pra tratar da destruição da Amazônia. Líderes mundiais estão engrossando o coro. Vai vendo…

 

Não tem história boa que a gente queira contar pelo mundo, reformas ou plano de privatização para atrair investidor, acordo de Mercosul com a União Europeia, que a fumaça não encubra. Quem ainda não entendeu o tanto que o meio ambiente é importante, vai compreender que não adianta falar grosso e desprezar a Europa, quando a gente não está dando conta de cuidar bem do nosso quintal.

 

Queima mais a Amazônia, a reputação do Brasil, o presente, o futuro e as nossas esperanças. A realidade nos deixa cada vez mais sem ar.

 

*Vem pro @maesemreceita no Instagram. Vamos juntos.