Se desse pra fazer um ultrassom, meu coração apareceria reluzente.

foto: Pixabay

 

Estava sozinha com meus dois filhos no carro, a caminho do almoço deste domingo na casa da nossa tia e, de repente, me deu uma vontade de falar para eles o que esta segunda-feira significa pra mim:

 

“Filhos, amanhã é um dia muito importante pra mamãe. Meu primeiro emprego como jornalista foi numa TV lá de BH. Foi lá que eu conheci o pai de vocês. Daí, a mamãe trabalhou um tempo lá, depois, um tempo na mesma televisão em Maceió e, quando vim aqui pra São Paulo, 13 anos atrás, eu sonhava em trabalhar nessa TV também. Só que a mamãe fez algumas escolhas que acabaram impedindo que ela conseguisse. Daí, ela foi para uma outra televisão e, lá, decidiu ter o Fefel. Voltar pra primeira deixou de ser uma coisa importante. Depois, a mamãe já tinha mudado de emprego de novo quando quis ter a Gabi. Aí, ela preferiu trabalhar perto de casa, vocês eram pequenininhos… O tempo passou e a mamãe deixou de querer do mesmo jeito voltar para aquela TV. Só que aí, agora, vocês cresceram, eu estava muito triste no emprego e decidi tentar. Então, amanhã, a mamãe vai começar um trabalho, por um tempo, lá nessa TV que ela quis muito. Depois de tantos anos, vai ser legal.”

 

Breve silêncio.

 

Segundos depois, Gabi dispara:

“Que bom que você está realizando um sonho, mamãe!”

 

Meu coração reluziu.

 

“Filha, que coisa linda, você, tão pequenininha, ter entendido isso. Que era um sonho da mamãe! Você também entendeu, né, filho?”

 

Por mais rápido que a reação tenha sido, o que ela disse me fez entender que, sem planejar, eu estava dividindo uma história que, além de ser muito importante pra mim, também estava sendo marcante para eles. Principalmente porque a fase da vida que a gente mais sonha, até sonhos impossíveis, é a infância.

 

“Eu também quero realizar meus sonhos”, Rafael continuou.

“Ah, meu filho, você é muito novinho. Ainda tem tempo… Os  sonhos às vezes mudam, mas se você continuar querendo, é só correr atrás.”

 

A nossa vida é tão complexa, são tantas circunstâncias e tantas escolhas que fazemos pelo caminho – e que nem sempre podemos imaginar os desdobramentos – que, às vezes, alguns sonhos não se realizam. Outros se perdem. Ou se transformam.

 

Comigo foi assim.

 

Com o tempo, você descobre que as suas prioridades mudam, que coisas que, no passado, queria acima de tudo já não têm o mesmo poder de encanto. Ou que você não quer mais a qualquer custo.

 

Evoluir dá um trabalho danado. Mas é libertador.

 

Eu fui buscar uma oportunidade pra ver se aquele sonho antigo ainda era possível… E pra saber se poder vivê-lo teria grande valor pra mim. Afinal, eu me pergunto: Será que aquele sonho antigo é mesmo bacana como eu um dia imaginei?

 

Ainda quero viver isso. Tanto que fui atrás e agora estou voltando pra primeira TV, por um tempo determinado. Mas o amadurecimento faz a gente desidealizar tudo. Até os sonhos. Hoje, estou certa de que será suficiente para eu saber se ainda é algo que mexe com o meu coração.

 

O tempo dirá.

 

A verdade é que, depois de mais de dez anos, eu acredito que sonho antigo só deve ser bom mesmo se ainda fizer sentido. Mas isso meus filhos ainda vão descobrir. Não precisei contar.

 

O que vale agora é o prazer que estou tendo de viver esse momento e poder dividir isso com eles. Pra mim, é também uma chance de tentar resgatar uma história que foi perdida lá atrás. No fundo, no fundo, adoraria ser surpreendida. Filhos, família e os bons amigos estão na torcida! E eu acredito: Deus está me abençoando.