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Passadas as preocupações de saúde e as adaptações que o isolamento por coronavírus nos impôs, com todos da família contaminados, sobrou mais tempo pra tentar administrar as milhares tarefas domésticas.

 

Sem o privilégio de ter alguém nos ajudando a cuidar da casa, entendi de forma definitiva que precisava fazer as crianças participarem mais. Menino e menina igualmente, claro, respeitando só as diferenças de idades e as possibilidades de cada um. Teve bastante conversa e, sobretudo, a demonstração de que, com todo mundo em casa, não dá para uma única pessoa ficar responsável por tudo que beneficia a família toda.

 

Mas como agir quando a criança se recusa e diz que não vai fazer? Ah, eu queria ter um aparelho para fazer a imagem do fígado da mãe nessa hora.

 

Pra não ficar na argumentação constante que, dependendo também da criança, quase sempre vira bate-boca e desgasta ao infinito e além, confisquei o telefone, que cedi dois meses atrás para o mais velho ir e voltar sozinho da escola. Nem sei se teria uma consequência mais oportuna, relacionada à recusa em participar. Mas a minha decisão teve um fundamento claro, que já aprendi em análise e ouvindo palestras de especialistas: a criança precisa entender que a vida não é só uma festa.

 

Já me convenci de que, com as mudanças impostas pela quarentena, é melhor tirar celular, game, sessão de filme ou Netflix do que seguir no: “Não vai participar? Então, não vai comer, vai viver na sujeira, não vou jogar as roupas sujas na máquina e não vai ter nem toalha limpa pra se secar”. Radical mas, só de lembrar, já estou rindo. Ai, gente, escapou. Afinal, somos humanos, imperfeitos.

 

Muito provavelmente, eu não teria coragem de levar essa reação a cabo, porque ia encontrar outra saída, menos radial e mais efetiva como, de fato, encontrei. Mas na hora H, quando falei, vi olhos bem arregalados e cara de susto. Não é mole se reinventar pra saber educar quando tudo sai do “script”!

 

Seria injusto dizer que as crianças não estão participando. Mas os combinados que foram feitos lá no começo não estão funcionando como deveriam. Louças continuam a brotar na pia, diariamente, a casa suja, fica bagunçada e parece que ninguém se importa. Aqui, diante do recolhimento do celular, vi brotar uma consciência diferente.

 

A caçula mandava mensagens do celular do pai, que passou muitos dias abatido pelo coronavírus, como se fosse ele escrevendo. Só que assim: “De volve (separado mesmo) o telefone do Fefel.” Esse é o apelido carinhoso que brota quando tem solidariedade de sobra entre irmãos, que também vivem se desentendendo. Ta aí outra coisa que a quarentena tem feito: intensificado a convivência e a relação entre irmãos.

Mas logo em seguida, o mais velho teve uma grande ideia:

– Por que a gente não faz um quadro de tarefas?

Muito bom! Eu já tinha pensado nisso, mas não coloquei em prática. Diante de tantos desafios, continuo me perdoando. E foi assim, com a sugestão do Rafael, de 11 anos, que surgiu o que já se transformou num compromisso. Obviamente, com brechas a interpretações. Se até a Bíblia e a Constituição são lidas de formas diferentes, imagine um quadro de tarefas…

Mas logo depois que a lista foi construída, perguntei o que ficou definido.

– Eu vou por e tirar as louças e lavar.
– Ah, é? Como foi decidido?
– Eu decidi. Achei que estava sendo inútil mesmo.

“Achei que estava sendo inútil!”. Poesia para os ouvidos. Precisava do tal aparelho para ver o coração, o peito e o cérebro diante de tamanha alegria.

Gabriela, no dia seguinte, já com a divisão estabelecida entre eles, vem com essa: “Se a gente está doente, contrata uma pessoa que já pegou coronavírus e curou.”
Esperta, quer continuar na moleza.

Aí, pergunto:

– Por que você pensou nisso?
Show de sinceridade:
– Porque é meio chato fazer as tarefas.
– Mas, Gabi, você reconhece que esse é um trabalho super importante, difícil e que a gente precisa ajudar a cuidar da casa?

O irmão, a caminho de arrumar a mesa do jantar, intervém:
– Sim.

Não demora muito, ouço a pérola: “Nossa, quanta sujeira a gente produz!”

Pense na minha felicidade. Afinal, ter consciência é fundamental não só para tornar mais igualitária e justa a vida em casa, mas também para seremos pessoas e cidadãos mais responsáveis. Pra ficar mais divertida a hora do trabalho, trilha sonora. Aliás, música faz tudo ficar menos pesado e chato. Trabalho em casa, então, nem se fala. Não demorou muito, lá está ele dançando e derrapando na água que caiu da pia. Mais doses de felicidade.

Mas achar que será sempre assim ou acreditar que a pandemia vai nos tornar melhores definitivamente, dentro e fora de casa, só porque as coisas estão diferentes neste momento, é puro romantismo. Desses que acaba de um dia pro outro.

– Mãe, que dia é hoje?, pergunta Gabriela.
– Sexta-feira.
– Eu não vou aspirar!
– Como assim?
– Não é justo a gente trabalhar todo dia.
– Ah, não? Mas todo dia você suja, todo dia tem bagunça…

Pronto, parei. Vou discutir pra quê?

Agora, é assim: se quiser diversão fácil, tem de participar. Porque a vida não é fácil. E quarentena não é escravidão pra mãe. Se a gente não se blindar, enlouquece!

Tem mais: passado esse período, cabe a nós trabalhar para fazer com que as boas mudanças permaneçam. Isso inclui a ajuda aos mais pobres, que pelejam a vida toda e sofrem muito mais que nós. Já ouviu falar em renda mínima? Dá um Google. Eu defendo tanto quanto a divisão das tarefas em casa.

 

*Vem pro @prisemreceita, no Instagram. Vem, gente!