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Andei lembrando esses dias da época em que me sentia um avião cargueiro. Foram anos de sessões de análise para aprender a deixar cargas pesadas caírem. Ainda bem que aprendi antes da pandemia porque, senão, já teria tido um troço.

 

Com o trabalho no divã, aos poucos, comecei a me enxergar como aqueles aviões em missões humanitárias jogando pacotes pelos ares. Sabe? Deixei muitos pesos caírem. Tinha o da mãe que queria controlar os filhos e até tentar mudar comportamentos deles; o da mulher que queria, entre outras coisas, cuidar da saúde do marido; o da funcionária que queria provar para o antigo chefe que algumas coisas eram inconciliáveis e irrealizáveis e, por aí, vai…

A lista é longa.

 

Não foi fácil deixar cair, mas só a partir daí comecei a alcançar a tão almejada leveza. Pois, o aprendizado funciona assim, em momentos desafiadores como este que estamos vivendo: toda vez que sinto que está ficando muito pesado, que não vou dar conta ou que o peso vai virar sintoma – raiva, nervosismo, dor nas costas, estresse, tristeza ou vontade de sumir – desativo.

 

Foi por isso que passei a manter uma certa distância de acompanhar com afinco as atividades escolares em casa. Se tem um negócio que já me deixou enlouquecida nos últimos meses, foi isso. Por outro lado, tenho a sensação de que eu sou uma das mães que menos conseguem acompanhar tudo. Andei perdendo até emails da professora! Ai, ai, essa foi dose!

 

Só que quando me vejo me cobrando mais do que posso suportar, logo penso: “Você já está fazendo muito conciliando trabalho, atribuições da casa, cuidados com dois filhos que exigem sensibilidade e disposição emocional, cuidados pessoais e, definitivamente, não pode dar conta de tudo. Vai escapar e tudo bem!”

 

Estou sem conseguir dar conta de um tanto de coisa. Não deixa de ser triste, mas não consigo mais escrever como antes da pandemia, não consigo me dedicar para o blog como fiz ao longo de 4 anos, não consigo ver filme, série, ler livro, nem a Bíblia… Não faço atividade física com a frequência que gostaria, não acompanho mais rede social, não posto, não leio o jornal todo dia, nem meus colunistas preferidos. Também, pudera… Acordo de madrugada para trabalhar, trabalho e falo de máscara trocentas horas por dia – socorro! – e, quando chego em casa doida para descansar, tenho as crianças em casa em vez de estarem na escola. Quase todo dia tem um perrengue.
Não tá fácil pra ninguém!

 

Aí, quando começo a me sentir mal porque não vi o email importante da professora perdido na caixa lotada de “sugestões de pauta” de todo tipo de assunto, logo lembro daquele avião cargueiro, penso nas minhas limitações e olho para minha humanidade para me dizer: “Está tudo bem se você não deu conta de fazer. Ninguém vai morrer por isso!” Alivia.

 

Ou seja, basicamente, se a minha filha ou meu filho não forem aprender do mesmo jeito que outras crianças, se o meu filho não está conseguindo ser aquele aluno comprometido e com ótimos resultados de sempre, se a minha filha não quer fazer tudo como os exercícios sugerem, eu não consigo fazer mas nada além do que eu já estou fazendo! Se o meu corpo vai ficar mais mole do que eu gostaria, se eu estou correndo risco de perder leitores e até mesmo o espaço que tanto me esforcei para ter e manter é lamentável, mas eu não consigo dar conta de tudo!  Se já não posso alimentar as redes que tanto me fizeram bem e feliz, é porque não tenho o mesmo tempo e fiz escolhas que hoje não me permitem.

 

Nunca é fácil deixar cair. Mas enquanto a pandemia durar, eu quero ser capaz de acessar esse aprendizado e de olhar pra mim com gentileza, sem correr o risco de ter uma pane ou tombar em pleno voo por excesso de auto cobrança e de peso. Ou melhor, por excesso de carga.

 

*Vem para o @prisemreceita no Instagram, enquanto ele existe. Vem, gente!