foto: Carol Chevalier

“Se eu pudesse dizer uma coisa só, uma dica única que ajudasse os pais de UTI, seria: Cuide de você. Quando nasce um bebê antes do tempo nasce também uma mãe que está assustada, impotente, se sentindo despreparada….  Aceite o tempo, a surpresa, as mudanças, viva as conquistas como elas chegam e confie. Confie em você, no seu pequeno, numa força maior. Logo tudo isso vira memória e vocês estarão juntos, rodeados por amor.”

 

Quase sete anos separam essa mãe, que teve gêmeos prematuros em Nova York, da que hoje escreve e inspira milhares de outras com reflexões e histórias sobre autoestima, maternidade e sobre os filhos, “os bacuris”. Lucas e Nicolas ganharam o apelido carinhoso da mãe, a relações públicas e tradutora brasileira Carol Chevalier, radicada nos Estados Unidos.

 

A chegada deles antes da hora e os dois meses de internação neonatal provocaram uma revolução na vida da mãe, que já tinha enfrentando outras grandes mudanças  antes. Formada em RP, Carol deixou a carreira em São Paulo e, ao chegar aos Estados Unidos, trabalhou na área de comunicação de uma estilista francesa. Mas, com a crise financeira de 2008, perdeu o emprego e decidiu mudar de rumo de novo. Começou, então, a trabalhar como tradutora voluntária na ONU. Na mesma época, decidiu começar a escrever sobre beleza num blog de brasileiras em NY. Foram quatro anos de trabalho, até os filhos chegarem. Com os bebês prematuros, ela abandonou tudo.

 

“Tive uma gravidez muito difícil. No primeiro ano deles, foi uma situação de sobrevivência. Sobrevivemos todos. E quando voltei para o Brasil (os gêmeos tinham 2 anos), foi muito difícil porque eu estava desconectada de tudo. Tentei me reequilibrar, me reencontrar.”

 

De volta, ela decidiu abrir um Instagram materno. Era 2014, uma época em que a rede nem era tão conhecida ainda. Surgiu ali o Mamãe no Espelho. “As pessoas só publicavam fotos”, relembra. Mas ela escrevia e fazia o que define como “auto análise pública” da própria situação materna. Hoje, o antigo perfil deu nome ao livro que ela acaba de lançar na estreia como autora: “Mamãe no Espelho: Reflexos e Reflexões Além da Maternidade” (Much Editora, 2019).

 

Carol sempre gostou de ler e de escrever. Escreveu o primeiro livrinho aos 12 anos. Nunca foi publicado, mas a mãe dela guarda até hoje. “Eu dizia que ia ser dona de livraria para ler todos os livros do mundo”, relembra. Para chegar aos dois livros lançados juntos, foram 10 meses de trabalho.

 

“Escrever sempre foi uma terapia para mim. Eu processo meus pensamentos escrevendo. Ao longo dos anos de Instagram, escrevi muitas reflexões sobre maternidade. Chegou num ponto que as pessoas diziam: você tem de juntar num livro e aí comecei a amadurecer essa ideia. Os livros trazem textos já publicados e outros inéditos. Alguns, escrevi quando estava grávida”, explica.

 

A agora autora, mãe de gêmeos e tradutora conta como faz para administrar tudo: “A gente se vira do jeito que dá e não se exige mais do que pode dar. Rede social dá impressões que nem sempre são verdadeiras. Tem gente que acha que eu dou conta de tudo. Eu não dou e nem pretendo. Eu priorizo o que é mais necessário.”

 

Os livros trazem a evolução dessa mulher que começou falando publicamente só sobre maternidade. Carol diz que a transformação no conteúdo aconteceu com a volta da família para os Estados Unidos, em 2016, depois de dois anos no Brasil. Na época, ela decidiu trocar o nome do perfil. “Essa mudança coincidiu com uma construção que me fez querer começar a assinar meu nome.” O Mamãe No Espelho deu lugar ao @carol_chevalier, que hoje reúne cerca de 160 mil pessoas interessadas nos textos, nas reflexões e nas histórias da mãe e dos bacuris, cheios de estilo.

 

A relação com as redes é algo que a família Chevalier já está acostumada. Carol tem outras duas irmãs que também moram na Flórida e compartilham um pouco do dia a dia no Instagram. Mas para encontrar dentro de si tudo o que publica e compartilha, ela revela que é adepta da meditação. “Comecei em 2010, quando a gente começou a tentar engravidar. Todo mundo engravidava à minha volta e eu não conseguia de jeito nenhum. Sempre fui calma, mas aquilo começou a me afetar. Eu estava ficando louca e precisava achar alguma coisa que me ajudasse a ficar centrada de novo. Quando os meninos nasceram, eu esqueci completamente.” De volta aos EUA, com os filhos já um pouco maiores, ela voltou a meditar. “Aqui em Miami, comecei a fazer meditação seriamente e a questionar várias coisas na minha situação como mulher, muito além da maternidade.”

 

O resultado aparece nos textos. “A gente consegue ver a progressão na minha forma de pensamento. Em alguns dá para ver o meu amadurecimento. Eu mudei o olhar, porque os meninos cresceram, porque li livros, mudei o pensamento.“

 

A nova fase está sendo comemorada em família. Lucas e Nicolas estão sendo alfabetizados e, como diz Carol, estão espalhando aos sete ventos que a mãe é escritora. “Estou achando muito fofo”, orgulha-se.

 

Aquela mulher que um dia se sentiu despreparada e impotente com dois prematuros nos braços, hoje experimenta uma sensação única: “é uma mistura de borboletas na barriga com me sentir poderosa de ter conseguido, finalmente, ter em mãos algo que eu tinha visualizado e discutido muito”, comemora.

Dá para entender o prazer pela conquista, cheia de história.