Lá vou eu entrar em polêmica. É que o assunto volta às aulas se tornou o principal num dos meus grupos de mães da escola. No outro, estão mudas. Pois parece que aqui no Rio, a novela do volta-não-volta vai acabar, depois que o Tribunal de Justiça deixou a decisão final ao prefeito. Ele, que já tinha liberado há tempos, voltou a autorizar o retorno agora. Obviamente, não há consenso.

 

O sindicato dos professores é contra porque a decisão não leva em consideração as pesquisas científicas e orientações de institutos como a Fiocruz e a UFRJ. Motivos pra defender o isolamento não faltam. Ainda mais num país que já tem mais de 140 mil mortos por COVID-19 e continua contando. Mas você também já deve ter ouvido falar que isolamento no Brasil não é pra quem quer, é pra quem pode. Ou, pra quem um dia pôde, quis, entendeu e cumpriu. Né, minha gente?!

 

Do Leme ao Pontal, ou melhor, da Rocinha à Baixada Fluminense, passando pelo famoso Terreirão – comunidade cravada no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, as pessoas estão nas ruas, aglomerando e, muitas vezes, com máscara no queixo, à moda brasileira.

 

Pois bem, do lado de quem apoia o retorno a avaliação é de que, com a volta de todas as atividades, manter escolas fechadas é penalizar ainda mais as crianças que já estão há quase sete meses sem escola. Centenas de milhares da rede pública estão também sem aulas, sem água potável, sem merenda, sem garantia de segurança alimentar e, em muitos casos, num contexto de violência psicológica e física.

 

“Não podemos considerar apenas o aspecto sanitário da doença. Precisamos pensar no aspecto da saúde como um todo. As crianças estão sofrendo muito pela falta da escola. Tem de haver um equilíbrio nesse debate. Obviamente, a saúde pública é prioritária, mas não pode deixar de levar em consideração o que está acontecendo com as crianças”, já defendeu em entrevista o médico sanitarista e pediatra Daniel Becker. #Adoro.

 

Ele destaca que a escola é uma ponta de proteção social fundamental para a criança. Outro dia gravei uma entrevista com o policial civil formado em psicologia Emerson Brant, especializado em depoimentos de crianças e adolescentes vítimas de violência. Brant fez um relato assustador sobre o aumento de casos que chegaram à Delegacia da Criança e do Adolescente, no centro do Rio, durante a pandemia. Crianças em casa, sem escola, estão em contato mais constante com abusadores. E, portanto, estão sendo vítimas com mais frequência. Sinto um aperto no peito só de pensar.

 

O retorno às escolas, nesses casos, é essencial.

Há risco de saúde em famílias de crianças que têm contatos com avós? Sim. Há risco para professores que têm comorbidades? Sim. Há risco maior para a população como um todo, com o aumento na circulação de pessoas? Também. Mas a vacinação em massa ainda vai levar tempo. Diante disso, sou do time que defende que não dá para ampliar indefinidamente o sofrimento psíquico e físico de milhares de crianças. Cuidemos das medidas sanitárias.

 

Só lamento que, se o retorno acontecer, ele não vá beneficiar alunos de escolas públicas nesse momento. Justo eles que, além de todo o drama, provavelmente já se expuseram ao vírus nas ruas de bairros e comunidades onde moram.

 

Chegamos a outubro. Nessa altura do campeonato, o ano escolar já está perdido pra milhares, mas a escola é muito mais do que o conteúdo. Que as adaptações sejam feitas, definitivamente, em colégios públicos de todo o país para garantir a segurança sanitária de quem trabalha e estuda. Porque enquanto o retorno só for para crianças das escolas particulares, como os meus filhos, só vamos reforçar a exclusão que, aliás, ficou ainda mais severa nesses últimos sete meses. Pior pra todos nós que sabemos que um país melhor começa pela educação.

 

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Um #paposemreceita de dias atrás, só para descontrair. Senão, ninguém aguenta.