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Acabo de terminar um livro de uma história real que traz mais relatos marcantes daqueles tempos cruéis da Segunda Guerra Mundial, em que milhares foram perseguidos e mortos só porque nasceram judeus. É revoltante ver que ainda hoje o racismo e a intolerância matam.

 

Acompanhei com emoção e coração aflito a história que teve mais de 20 milhões de exemplares vendidos no mundo. Ao longo da leitura, me impressionei, fiquei apreensiva, interessada e admirada com a saga narrada por Joseph, o caçula de cinco irmãos, em “Os meninos que enganavam nazistas”. (Joffo, Joseph – Vestígio, 2017). Apesar de supor, até pelo título, que os dois mais novos sobreviveram, passei o livro todo querendo saber o que aconteceu com a família, ao longo da guerra.

 

O livro ainda tem um diferencial que me aproximou muito do drama dos meninos: Jo tinha 10 anos quando o pai o mandou fugir de casa junto com o irmão, para não serem mortos. Dez anos é a idade do meu filho.

 

Acordei hoje pensando nos diálogos relatados no posfácio, entre autor e leitores em escolas. A pergunta que ele mais ouviu é: “Por que os pais deixaram filhos de 10 e 12 anos partirem sozinhos por uma França ocupada por nazistas?” Cá entre nós, é óbvio que não havia escolha segura, mas a família acreditava – e acertou, felizmente – que, fugindo, os pequenos conseguiriam preservar a vida.

 

Um aspecto na saga me fez pensar na capacidade que os dois tiveram de se virar e sobreviver: esses meninos foram capazes de se virar por ruas de diferentes cidades porque já desbravavam Paris na infância. Eram crianças que ocupavam a cidade, que tinham um senso de referência.

 

Hoje, crianças, como os nossos filhos, circulam estimuladas com TVs, tablets, celulares. Os meus ainda prestam atenção no mundo pela janela. Mas, como a maioria, passam boa parte da vida em lugares fechados. Quantas saem pela cidade? Ontem mesmo perguntei para um amiguinho do meu filho, que mora a quatro ruas do colégio, se ele ia caminhando sozinho para a escola. “Nãooooo!”, respondeu com espanto. Nem precisou complementar com um “Tá maluca, tia?!”, porque eu entendi. De fato, é difícil pais e mães se sentirem seguros para deixarem os filhos irem ou saírem sozinhos de atividades nas grandes cidades, como já fizemos no passado.

 

“Temos aumentado muito a conta da segurança. Pai e mãe hoje precisam saber (rastrear) tudo por conta da segurança. Filhos não vão andando, pela segurança. Mas, na adolescência, escapam do nosso controle. Temos adolescentes que não sabem andar nas ruas e vão para a noite. É importante aprender antes da adolescência.”, alertou a psicóloga, consultora em educação e colunista do estadão Rosely Sayão, numa palestra que assisti recentemente, em São Paulo.

 

O como fazer é um desafio que deve nos movimentar. Por outro lado, crianças pobres estão soltas por aí pedindo esmola. Isso sem falar nas que moram nos morros e comunidades – a maior parte negra, vítima de preconceito – vítimas da violência quase todos os dias. Quantos já não perderam parentes e amigos para a guerra urbana, inclusive em ações da polícia? Muitos vivem com medo de perder a própria vida.

 

Ao terminar o livro que agora recomendo, fiquei pensando em como muitos se emocionam com relatos do nazismo, mas desenvolvem uma apatia pelo que acontece tão perto de nós. Esse drama não acabou! A realidade no Brasil ainda é dura, desigual. E isso deve ser sim preocupação para todos nós. Não dá para aceitar e normalizar, por exemplo, as decisões de sucateamento de projetos sociais, de verba para creche, para escola, saúde e até para saneamento básico, por causa da crise. Tire-se de outro lugar!

 

Outro dia, no trabalho, ouvi a coordenadora da Pastoral da Criança da Vila Brasilândia (que nome simbólico), na zona norte de SP, dizendo que as crianças do bairro onde ela atua vivem doentes por causa do esgoto a céu aberto. De tanta doença, faltam aula constantemente. Consequência: alguns perdem até a vaga por isso. E as mães não conseguem trabalhar. É um círculo social vicioso. Depois, ainda tem gente que acha que tudo na vida depende só de méritos pessoais. Tudo isso tem reflexo na vida de todos nós, não se engane.

 

Os Joffo, felizmente, voltaram pra casa depois de três anos. Mas, para isso, tiveram ajudas importantes. E a guerra acabou. Quando é que melhora a realidade das crianças brasileiras?

“Devemos nos manter vigilantes”. A recomendação de Joseph é para todo tipo de intolerância e para todas as circunstâncias que envolvam, inclusive, crises econômicas, como ele deixa claro no posfácio. Haja resiliência para seguir em frente. Mas sigamos, inspirados, sem perder a vigilância. Essa história é nossa.

 

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