A curiosidade é um negócio interessante, que parece que nasce com a pessoa. Nasce e não se perde. Nem precisa estar em serviço. Curiosidade não bate ponto, anda o tempo todo junto. Na rua, na chuva, na fazenda… Às vezes, a pessoa é curiosa desde pequenininha. Há quem cresça e continue. Foi assim comigo.

 

E se tem um ser curioso no mundo é o tal do repórter. Não perde nem pra criança. Ou, quase nunca.

 

É uma curiosidade tão natural que quando você está ouvindo uma história e pergunta algo além, costuma ouvir coisas do tipo: “Ah, não sei, não perguntei.” Como não?! Não deu vontade de saber? Para quem é curioso, sempre dá. Repórter, então, descobre coisa que ninguém imaginava. Por causa disso, as histórias costumam ficar mais interessantes. Ou mais relevantes. Repare pra ver.

 

Mas tem uma outra coisa especial. O olhar. Sabe-se lá como e porque, é um olhar que enxerga o que milhares não veem. De novo, igual criança. Feito quando elas observam e te apontam coisas num caminho que você faz há anos e nunca tinha reparado. Na ida para o meu novo trabalho, por exemplo, tem uma igrejinha daquelas que a gente encontra em cidades pequenas, só que cravada no meio da mata, numa montanha. O cenário é lindo e eu me vejo pensando coisas do tipo: “Desde quando ela está ali? Por que construíram uma igreja num lugar assim? Como as pessoas chegam até lá?”

 

Olhar de repórter costuma ser sensível também, de compreensão. Do tipo que olha, não julga e tenta entender. Faz parte da essência. Eu mesma, toda vez que sou abordada no semáforo por jovens e crianças pobres fico imaginando a vida dura, tão diferente da minha. “Será que têm família? Estudam? Quando comem? Como escapam da violência, do tráfico? Como vão conseguir emprego?”

 

É um olhar carregado de empatia. Nunca vou me esquecer de uma entrevista que fiz com uma menina de 18 que já tinha tido 3 filhos. Chocada, perguntei pra líder comunitária: “Mas como pode? Elas não têm acesso a pílula no posto?” A resposta, que mudou a minha compreensão pra sempre: “Têm, mas não sabem usar. Essa menina mesmo se esqueceu de tomar vários comprimidos. Um belo dia, quando lembrou, tomou 18 de uma só vez. Passou tanto mal que foi internada e, de tão fraca, quase morreu.”

 

Ali eu entendi toda a complexidade da gravidez na adolescência. Prevenção tem a ver com rotina, organização, disciplina. Com cuidado pessoal. Com saúde, informação. Com estabilidade. E com muito mais. Imagina quem cresceu sem ter todo dia o que comer? Não tinha nem o tal café da manhã ou jantar pra lembrar de tomar o comprimido sempre na mesma hora. E se não foi à escola porque tinha de trabalhar? E quem não teve pai e mãe que sabia dar orientação sexual? E se tiver frenquentado a escola mas não tiver aprendido isso lá? Já pensou? Repórter pensa. Num mundo tão individualista, dá orgulho de ver. E de ser.

 

Essa curiosidade e o olhar sensível podem provocar mudanças. Nem que seja pequenininho, devagarinho. Afinal, é com a mente ativa, com coragem e humanidade que a gente descobre, entende, esclarece, aprende. Informa. Transforma. Não deixa de ser um sonho romântico ajudar a fazer do mundo um lugar mais gentil, mais correto, honesto, mais justo, compreensivo, menos desigual e mais solidário e humano. Levo comigo toda essa bagagem e esperança a cada nova história. A vida toda e, certamente, enquanto viver.

 

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