Extrair meus sisos foi mais fácil do que manter o diálogo 

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Tenho andado inconformada com a dificuldade de conversar com meu filho. Eu sei que faz parte e que devo me acostumar, porque se intensifica na adolescência. E em todas as culturas. Sex Education, que assisti sozinha na Netflix, mostra bem como é. Ainda assim, incomoda. Será que a mais alguém por aí?


Eu tinha idealizado que, graças ao fato de eu ser falante, ter disposição e abertura para o diálogo, conversaríamos bastante. Mas o meu filho, hoje com 12 anos e meio, é o oposto: sempre foi reservado, daqueles que não nos conta nada. Nem com a psicóloga que nos ajudou num momento importante, tempos atrás, ele se abria como poderia. Aí, a pré-adolescência chegou e me apresentou o silêncio. Conversa com frequência, só escuto mesmo on-line com os amigos.

 

Em casa, ele é capaz de pular da mesa no meio de um assunto que renderia um papo pra se enfurnar no quarto. “Volta! Espera todo mundo acabar! Estamos conversando…”, eu falo é quase todo dia. Podia até deixar numa playlist e dar o play pra me poupar do desgaste. Mas não é só.


Anda no carro comigo praticamente calado. Como não permito que fique digitando e trocando mensagens no celular enquanto dirijo – me recuso a ser o Uber dele! – o menino fica contrariado. Pra ter uma conversa, olha, quase sempre é com esforço. Sempre eu puxando assunto, claro.

Extrair meus sisos foi mais fácil!

 

Fora o constrangimento quando a mãe de algum amigo ou colega vem me contar algo que eu não sabia. Seja sobre relacionamentos, discussões e conflitos em que ele está envolvido ou conversas sobre sexualidade.

Eu e o pai atuamos, fazemos intervenções, mas confesso que  vira e mexe somos pegos de surpresa.


Recentemente, comprei livros sobre sexualidade por recomendação de uma ex-vizinha amiga, que é psicóloga. Lemos um pouquinho do primeiro, ele tirou umas dúvidas, mas logo quis fazer outra coisa. Tenho que achar esse livro!

 

Recentemente, teve uma fase boa numas semanas em que íamos juntos pra fisioterapia. Cavucando, ele quis contar histórias, inclusive, sobre meninas. Foi super bacana. Mas passou. Ontem no carro, ele até dormiu.

 

Eu fico me perguntando se com a minha filha menina será diferente. Se bem que fiquei impressionada de ver no salão mãe e filha sentadas frente a frente por mais de uma hora sem falar nada uma com a outra. A mãe esperava a menina que devia ter uns 16, 17 anos, cortar e secar o cabelo. O silêncio reinou!

Fiquei me perguntando: “Será que essa mãe está cansada de tentar conversar?” Só a gente sabe onde o sapato aperta.

 

Estabelecer diálogos exige um esforço tão grande e a vida está tão desafiadora pra maior parte de nós, o deserto está tão longo que, na lógica de ter de escolher as batalhas, tem horas que preciso aceitar o silêncio.

Ontem mesmo eu estava lembrando da época em que eram bebês e que eu falava, falava e falava sozinha. Sem esperar retorno.

Acho que preciso beber mais dessa fonte. Falar o que preciso, sem esperar interação. Ou aceitar que não vai render mais que poucas palavras, como acontece com frequência. 

-Filho, você pode conversar comigo sobre o que quiser.”

-Tá.

-Sabia que eu te amo?

-Sim.

-Como você sabia?

-Porque você fala todo dia.

Respostas monossilábicas ou bem curtas. #TáTendo. Ele não conversa. Nem sempre reage. Mas está ouvindo. Certo?

Me alimento com a certeza de que estou tentando e fazendo o meu melhor. Inclusive quando estou em silêncio. E como é bom também se dar ao direito de, às vezes, não falar nada.

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, no Instagram. Vem, gente!