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Como é, afinal, o dia seguinte dos milhões de brasileiros que temiam o resultado que tivemos?

Posso falar por mim.

Começo lembrando que, há muitos anos, não me sentia representada pelo PT. Mas o meu candidato não passou pro segundo turno. Diante das duas opções que nos restaram, eu tive medo. Aliás, eu, a imprensa e críticos internacionais, além de personalidades conhecidas que não são petistas, tipo Joaquim Barbosa, Rodrigo Janot, FHC, Fernanda Young, entre outros milhares. Complete a lista.

Talvez você já tenha sentido assim, em outras eleições… O dia seguinte é bem estranho.

 

 

Nas eleições passadas, eu tinha uma opção que considerava “menos pior” no segundo turno, mas não temia nenhum dos lados. Desta vez, eu estava com muito medo, sobretudo, do discurso de ódio!

Teria sido bem mais fácil achar que era tudo bravata, como parte da minha família sempre acreditou. “Calma, também não é assim!”, não foi suficiente para acalmar a alma.

E olha que eu não faço parte do grupo que corre tanto risco num eventual governo reacionário. Não sou ativista, nem revolucionária, não moro em comunidade, sou branca, escolarizada, sou mulher, mas não sou homossexual. Quer dizer, tá fácil pra mim. Né? Só faltou a cidadania europeia para vazar, numa eventual necessidade, como amigas diziam que fariam se o PT ganhasse.

Eu fico pensando: deve ser bom poder sumir quando o negócio aperta, sem se perturbar com quem fica ferrado pra trás.

 

 

Pois eu sempre fiz parte do grupo sem rota de fuga, que tenta analisar, torce e cobra para dar certo. Além de sempre ter feito a minha própria parte.

Eu quero que dê certo. Sempre quis. Nós precisamos disso.

 

 

Mas sei que também tenho de torcer e orar para que o meu irmão gay não seja vítima de violência na rua. Para que meus amigos homossexuais possam viver a vida deles sem medo, porque tem muita gente defendendo que eles têm de voltar pro armário. Aliás, tem gente que está cheia de coragem para impor sua visão de mundo à sociedade.

Liberdades individuais, pra quê?

 

 

Bom, eu também tenho que torcer e orar pra que a minha mãe, psicanalista, professora e crítica, não seja perseguida. E pra que todos nós possamos manter o direito de pensar diferente e de se manifestar, sem violência. Para que milhões de pessoas que fizeram outra opção não sejam perseguidas ou prejudicadas só porque expressaram suas opiniões e tinham ou ainda têm medo de alguma coisa.

 

 

Eu, pessoalmente, neste momento, estou me apegando ao discurso da vitória, de que será um governo defensor da Constituição, da democracia e da liberdade! Eu quero mais é dizer que tive medo à toa.

Mas, se a gente quer um país melhor, ele tem de começar dentro de cada um de nós. E nas nossas atitudes.

Não pode furar fila, pagar salário por fora, sonegar imposto porque a carga tributária é absurda, “subornar” filho com presente, pedir favorzinho para quem tá no poder, usar carteirinha de estudante falsa, fazer conchavo para ganhar licitação, difundir fakenews e nem expressar opinião como se fosse notícia isenta. Por exemplo. Também não pode NUNCA partir pra agressão verbal e física. Cada um tem de trabalhar internamente a tolerância.

 

 

O fato é: o resultado que promete mudar o Brasil, escolha de mais de 57 milhões de pessoas, é fruto da democracia, que a gente tanto preza.

Então, cabe a nós respeitar, participar, cobrar e torcer.

Humanamente, a gente também deve tentar acolher as pessoas que ainda estão se sentindo ameaçadas. O nosso país será bem melhor, à medida em que a gente investe na nossa humanidade.

E que a gente possa gritar ao mundo: não foi como vocês imaginavam! Vocês se enganaram sobre nós.

 

Achei que valia a pena encerrar com o discurso que serve para todos nós, do ex-presidente americano Barack Obama, depois que a candidata dele, Hillary Clinton, perdeu as últimas eleições:

“Muitos estão exultantes hoje. Outros nem tanto. Mas essa é a natureza da campanha, da democracia. É difícil. Às vezes, ela é duvidosa e barulhenta. Nem sempre é inspiradora. Às vezes, você perde o argumento. Às vezes, você perde a eleição. É assim que a política funciona, às vezes. A gente tenta bravamente convencer as pessoas de que estamos certos. E as pessoas votam. E aí, se perdemos, aprendemos com enganos, a gente faz reflexão, lambemos as nossas feridas, limpamos a poeira e voltamos ao jogo. O ponto é: todos seguimos em frente. Com a presunção de boa fé nos nossos cidadãos.”

 

Sigamos em frente. E que a gente seja melhor, de verdade.