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Me sinto uma espécie em extinção, dessas que talvez valessem mesmo ser colocadas na lista do Ibama. Não apenas por ser jornalista e gostar de ler jornal, em tempos de redes sociais em que o forte é fakenews (que você jura que é verdade), #lookdodia e reality da própria vida. Tem sido um exercício constante resistir à desinformação coletiva, à alienação conveniente e ao exibicionismo. Mas nem é isso o principal motivo que me faz sentir que estou me transformando num tipo raro. É mais pela mulher e pela mãe consciente que sou, em tempos de terraplanismo. Socorro.

 

O ano é 2020. Eu sou do tipo que resiste em acreditar que nessa altura da modernidade, jovens ainda estejam sendo estimulados a se proteger da gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis através da abstinência. Como aceitar esse tipo de política de governo num país que tem índices altíssimos de gravidez na adolescência e de DSTs, principalmente, entre jovens pobres? Que tristeza, meu Deus. Alguém aí ainda não entendeu que isso se reflete na vida de todos nós, com índices de desigualdade, pobreza, baixo desenvolvimento e até de criminalidade? Pense na criança que nasce sem ter nenhuma estrutura familiar, cresce no mundo cruel, sem apoio, não tem acesso à escola e alimentação de qualidade, nem à serviço de saúde e quer tudo o que os nossos filhos querem. E sonha com tudo o que os nossos filhos sonham? Qual a perspectiva para o futuro?

 

Eu, que acabo de me mudar para o Rio de Janeiro, fico pensando que esse tipo de orientação para a sexualidade é quase que sugerir que alguém se proteja da radiação solar nas praias tapando o sol com a peneira. Não faça sexo. E tape o sol com a peneira.

 

“Ah, Priscilla, que comparação sem sentido. Transar ou não transar depende só de você, de vontade própria, de auto controle, de amor próprio!”, uns poderão pensar. Mas sabia que querer ter relação sexual e saber cuidar da própria sexualidade também pode ter a ver com vontade, com auto cuidado e com amor próprio? Por isso, os especialistas insistem em alertar que falar sobre sexualidade é tão importante, desde cedo.

 

Ainda assim, está cheio de gente por aí cuspindo na ciência e fechando os olhos para a realidade. Eu que sou cristã, mãe de dois, casada há quase 17 anos, monogâmica, conheço há tempos histórias de jovens evangélicos que, para não perder a virgindade antes do casamento, fazem sexo anal. Morro de pena das meninas que têm desejo e se submetem a isso para preservar o hímen e a pseudo virgindade. Além do mais, discurso de governo não poder ser como o discurso da igreja, em lugar nenhum do mundo.

 

Vou contar uma história, talvez, inédita. Uma das minhas melhores amigas de adolescência, a Bia, costumava dizer, no fim da década de 90, lá em BH, que nós éramos “as últimas virgens da cidade.” Eu me sentia assim mesmo, aos 20 anos. E não era por religião, jejum, voto ou promessa. Eu era puritana por vários motivos, apesar de felizmente ter tido acesso a todas as informações que uma menina e jovem da minha idade precisava ter tido pra se proteger, como tenho feito ao longo da vida. Moral da história, pra resumir: nós nos sentíamos as últimas virgens, mas não as últimas bolachas do pacote. Não vou mentir, tínhamos curiosidade, desejo, vontade. Até que um belo dia aconteceu com os namorados em quem confiávamos para viver uma experiência que deveria ser consensual e desejada por todo indivíduo.

 

Mas, bem antes disso, ainda adolescente, eu já tinha visto assustada crescer a barriga de uma colega da 8a série que engravidou (certamente deve ter havido casos de abortos na escola de elite) e vi uma adolescente,  criada na igreja evangélica, engravidar e a avó criar. Ou seja, jovens têm relações sexuais! Sempre tiveram e vão continuar a ter. Antes do casamento. C’est la vie, tant pire. “Mas é pecado!” Pois, conforme-se. Somos todos pecadores.

 

Como mãe, ensino o que posso de acordo com a idade e quero mais que meus filhos aprendam a se cuidar, desde sempre. Quero que conheçam os próprios corpos, limites e desejos sem achar que tudo é terrível. Sem crescerem cheios de traumas e problemas com a sexualidade que não se dissipam nem com o cônjuge escolhido, depois do casamento, na igreja. Aqui em casa, pra ficar num exemplo simples, não tem “Que coisa feia! Fecha as pernas porque menina não faz isso!”. Já entendi que não é repreendendo o que é da natureza humana e do movimento natural do corpo que a gente educa bem e ensina as crianças a se cuidarem.

 

Lendo o blog da Carolina Delboni, vi que a mestre em psicologia e especialista em sexualidade Carolina Freitas, do Sexo sem Dúvida, explica que falar sobre sexualidade não é especificamente falar sobre o ato sexual. “A educação para a sexualidade na infância engloba o conhecimento ao corpo humano, o respeito a si e ao outro, higiene, nudez, privacidade e consentimento. Falar de sexualidade não é estimular nem erotizar, muito pelo contrário, a criança bem informada estará protegida. Quando se tornar adulto vivenciará de forma mais responsável e prazerosa sua sexualidade.”

 

Parece tão simples para compreender. Por que, em pleno 2020, ainda tem gente que não consegue entender isso? Está aí um tipo de pensamento que já deveria ter sido extinto. Esse sim, sem necessidade de proteção do Ibama. Por via das dúvidas e para a nossa segurança, junte-se ao tipo que recomenda o uso do protetor solar! E de todo tipo de proteção que houver.

Que Deus nos abençoe e que seja um feliz Ano Novo!

 

*E vem pro @maesemreceita no Instagram. Vem, gente.