foto (da esq. para dir.): Dr. Luís Gândara, eu, Dr. César Fontes e Dr. Bruno Tessitore, coord. de CTI

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“Todo paciente é o amor de alguém.”

Talvez eu pudesse começar e já terminar só com essa frase, sem precisar dizer mais nada… Feito em sessão de análise, que costuma terminar numa frase relevante, pra você ficar pensando e construindo saídas dias a fio em cima dela. Quanta humanidade em tempos de guerra!

 

Mas há uma semana, sonho com UTI.

 

Tudo começou depois que, curada da COVID-19, pude acompanhar de perto a luta de profissionais da saúde pela vida na terapia intensiva do hospital de referência para o tratamento do novo coronavírus no Rio, o municipal Ronaldo Gazolla. Apesar dos novos equipamentos de ponta e do trabalho perseverante das equipes, a letalidade é altíssima. Por mais que esses profissionais estejam acostumados a encarar a morte tão de perto, é um baque diário.

 

A frase inicial que humaniza a luta é do diretor-médico do hospital, doutor César Fontes. Que prazer ter podido testemunhar essa humanidade e registrá-la pra posteridade.

 

Em todos os sonhos, é como se eu precisasse contar alguma outra história inédita desse front hospitalar na pandemia. Na fantasia (certamente seria assim na realidade) me surpreendo com algo que ainda não tinha visto e revelado.

 

Na porta do hospital, em Acari, na zona norte do Rio, meu coração já vibrava. Entrei sozinha, com dois Iphones e um fone de ouvido, que também serviria como microfone. Agradeci por ter me capacitado a fazer storytelling sozinha, só com o celular, durante o longo tempo em que fiquei fugindo do jornalismo diário. Mas foi graças ao ofício, fundamental, que pude seguir nessa missão gratificante.

 

Assumi a reportagem especial e exclusiva com um desejo enorme, muita coragem e com responsabilidade, só depois de ouvir a minha pneumologista Dra. Danielle Vasconcelos, que há 10 semanas dá duro e trabalha intensamente pra tratar pacientes infectados. Só eu já indiquei alguns, numa lista ativa que, infelizmente, nunca para de crescer.

 

Eu sabia que estava indo conhecer histórias importantes dessa guerra. Sem receber nenhum comando ou recomendação da chefia, eu tinha a convicção de que precisava humanizar a batalha. Tinha comigo a certeza de que, ao revelar um pouco da realidade e do drama desses bravos guerreiros, talvez, fosse possível ajudar a sensibilizar outras pessoas a assumirem responsabilidades possíveis na pandemia.

 

Afinal, se a gente se aventura, fura as regras da quarentena, sai por aí querendo “pegar logo esse coronavírus, porque não tem medo”, acha tudo uma “palhaçada” (como ouvi no elevador dois dias depois de constatar o drama no CTI) e adoece, são os profissionais de saúde que seguram o rojão a custo de um sacrifício gigantesco. Pior: sem conseguir salvar a todos.

 

Enquanto estamos sim cansados de ficar em casa, exaustos com o homeschool, doidos para vida voltar ao normal, sofrendo com desemprego ou perdas financeiras e pelejando para respirar bem usando máscara, profissionais de saúde estão fazendo um trabalho hercúleo para tentar salvar vidas e quase sem escolha. Eles são impingidos, todos os dias, a trabalhar super paramentados, a enfrentar a angústia e o medo de adoecer e de levar a doença para dentro de casa.

 

Eu quis saber: como conseguem?

“Hoje, se a equipe médica e os profissionais de saúde ficarem com medo, se isolarem e fugirem desse combate, quem vai atender quando os nossos familiares adoecerem? Eu não vou poder atender o meu pai. Então, se ele adoecer, eu preciso ter colegas que estejam trabalhando para cuidar dele também”, me disse emocionado o diretor-geral do hospital, Luiz Fernando Gândara. A minha emoção e os arrepios por trás da tela, o Iphone não captou.

É a força da missão e a capacidade admirável de se colocarem no lugar do outro.

 

Muito da luta grandiosa que eles travam todos os dias ficou registrado. Pra minha realização, são relatos e histórias emocionantes. Dessas que te fazem entender que, pra toda história de superação – que amamos ouvir – há um sofrimento que a gente nem imagina. É por isso que algumas vitórias são tão simbólicas e comemoradas, como revela a alta da Fernanda, registrada em vídeo. A jovem, de 26 anos, foi separada da filha logo depois de ser submetida a uma cesárea de emergência, com 28 semanas de gestação, para ser entubada imediatamente.

 

Mas eu ainda me pergunto: ao se emocionar com histórias de superação e desejar só notícias positivas, será que cada um de nós está fazendo o suficiente para ajudar a mudar a dura realidade enfrentada por esses profissionais, que são incríveis, mas são humanos?!

 

Além disso, a experiência de viver essa reportagem foi capaz de me mostrar, mais uma vez, que não estamos cansados só de notícia. Afinal, elas são um retrato da realidade. Estamos cansados da realidade. Mas, em tempos de guerra, como podemos escapar?

 

Escapar, talvez, não seja possível. Mas dá para tentar se proteger. Felizmente, já entendi que muitos de nós podemos escolher a forma como nos expomos aos fatos e, também, podemos cuidar da forma como a gente os encara. Só não podemos perder a sensibilidade. A minha forma de olhar e retratar a dura realidade da guerra que desemboca nas UTIs dos hospitais é um testemunho disso.

 

Pra terminar, aproveito as doces palavras de algumas psicólogas queridas, que deixaram registros e me ajudam a explicar o que sozinha, talvez, eu não conseguisse:

 

“Você faz tudo com tanta verdade, com tanta alma… Me comovo com o seu respeito pela vida e por como abraça os chamados e travessias.” – @glaucia_psicologia, psicóloga.

“Pri, só essa a resposta: seu caminho tem coração. E aí, você segue! Coragem: agir com o coração” – @carolinadantas_psicologia, socióloga e psicóloga.

“Que Deus abençoe esses guerreiros que se dedicam a salvar vidas e que você continue levando essa energia do amor por onde passar” – @margareth_braga, psicóloga clínica e minha tia amada.

Seguimos, com responsabilidade, amor, sensibilidade e sem perder a fé.

 

Te convido a assistir a minha reportagem. É só copiar o link abaixo:

http://recordtv.r7.com/balanco-geral-rj/videos/exclusivo-record-tv-rio-mostra-trabalho-em-cti-de-hospital-de-referencia-no-tratamento-contra-covid-19-25052020