foto: Pixabay

 

Já tem quase duas semanas que toda vez que sinto um cansaço mental e lamento estar enfrentando um momento difícil e desafiador na vida, meu pensamento é invadido pelo que se transformou o Afeganistão. 

Acontece assim: se me pego um pouco abatida pela espera da providência divina na travessia de um novo deserto, de repente, lembro do desespero por lá. O mais recente ataque com mortes nas proximidades do aeroporto promovido pela filial do Estado Islâmico em Cabul; a corrida desesperada de pessoas no aeroporto da cidade; as tentativas arriscadas de pessoas querendo fugir nem que fossem agarradas à fuselagem de aviões; o adolescente um pouco mais velho que meu filho, jogador de futebol, que caiu na pista e morreu; a dor e o desespero sobretudo de mulheres e crianças em meio à violência do grupo fundamentalista radical que voltou a tomar conta do país, pondo fim ao sonho de uma vida melhor. Quanta tristeza desse povo! 

 

Não é de hoje que eu tenho esse hábito – inconsciente e que não sei de onde vem – de fazer o que eu mesma passei a chamar em análise, uns anos atrás, de “sistema de compensações”. É como um mecanismo que a minha mente criou e que, em momentos desafiadores, diante do sofrimento ou de uma dificuldade, sou capaz de olhar para coisas infinitamente mais difíceis ao redor e, ao mesmo tempo, para bençãos na minha vida. Imediatamente, o tal sistema de compensações me diz: “Está difícil, mas tem muita coisa pior.” Mudo o olhar. Alivia. Diminui qualquer lamento. Surpreendentemente, muitas vezes, me faz até agradecer.

 

O sistema anda no ‘Modo Afeganistão’ desde que o Talibã retomou o controle do país asiático, mas há outros modos. Umas semanas atrás, levantei baixo astral e fui trabalhar pedindo pra Deus soprar um fôlego novo, enquanto agradecia por mais um dia. Grata sou. Chegando lá, a reportagem era sobre uma senhora que há dois anos espera justiça para a morte do filho mais velho e do marido, que ela viu serem assassinados dentro da casa da família. Meu coração até paralisa. Aí, eu que estava triste, vi o sistema de compensações ‘Modo Criminalidade Surreal no Rio’ ser, imediatamente, ativado. 

Como se queixar de alguma dificuldade depois de uma história dessas e de tantas outras que acontecem diariamente, principalmente com negros em comunidades? 

 

O problema é que a constatação de que há males muito piores não nos impede de sentir as dores que sentimos. Vinte dias atrás, quase tive um troço depois que meu filho caiu de um galho podre de uma árvore super alta do condomínio. Ele brincava de pique-esconde no escuro. Quem já sentiu esse aperto no peito ao ver um filho se machucar muito? Pois, pense no desespero.
Aí, no hospital, enquanto ele era virado do avesso e eu clamava constantemente por uma intervenção de Deus pra livrá-lo imediatamente do pior – cirurgia, pinos, gessos – veio o sistema de compensações. Desta vez, ‘Modo Criança Com Doença Grave’. Não consegui deixar de pensar na luta da Duda e da família dela, uma menina de 12 anos que entrevistei em julho, Mês de Conscientização do Câncer Ósseo. O sofrimento é de partir o coração. 

Moral da história: sair do hospital com o filho tendo que usar bota ortopédica é motivo de sobra para agradecer a Deus pelo livramento, respirar aliviada, grata e feliz.

 

Só que aí, numa hora qualquer, em pleno trânsito, você se lembra da crise que está enfrentando e dói. Mas quando olha pela janela, o ‘Modo Famílias no Semáforo na Pandemia’ é ativado e você se lembra que há desafios bem maiores e segue seu rumo agradecendo.

A verdade é que, em tempos difíceis, de travessia no deserto, toda vez que ativo um modo compensação, a minha resiliência se fortalece. O ‘Modo Afeganistão’ tem me feito reconhecer que está difícil, mas estamos bem enquanto lá afegãos e, sobretudo afegãs, estão perdendo histórias, saúde e sonhos de forma tão violenta.   

 

Mas o que mais tem me mantido firme na travessia todos os dias, muito mais do que esses muitos modos inconscientes de compensação, é a decisão diária de continuar confiante num Deus que responde fé, a despeito das circunstâncias, e que pode fazer infinitamente mais do que os nossos próprios braços em qualquer situação. Mesmo que demore mais do que a gente deseje. E o melhor: essa é uma fé que trafega pelo livre arbítrio e não oprime. Deus nos livre daquilo lá que os radicais talibãs chamam de fé e religião. Aquilo é trevas!

Misericórdia!

 

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, no Instagram. Vem, gente!