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Eu poderia pular esse tema e deixa-lo só lá para as redes sociais. Mas sabe o que é? Mesmo sendo cristã, não consegui interpretar a afirmação como se fosse apenas uma metáfora, porque a consequência, na verdade, já é muito maior.

 

Você até pode ter entendido que é uma declaração restrita à questão de gênero porque, afinal, foi só uma “metáfora contra a ideologia de gênero”, segundo afirmou a ministra Damares Alves ao Estadão. Mas, acredite: a tal afirmação, na verdade, abre as portas para o desrespeito às diferenças em todo canto. Nas escolas, nos clubes, nos parquinhos e parques que a gente frequenta. Nas ruas.

 

O negócio é sutil. Não faz muito tempo, falamos sobre essa história do rosa aqui em casa, porque meu filho de 9 anos ganhou uma camiseta do Barcelona de um pink gritante (linda, por sinal). Mas a irmã de cinco anos disse na hora que “rosa era de menina”. Logo em seguida, ela ouviu e entendeu que isso não tinha nada a ver. Porque não tem mesmo, vamos combinar. Então, seguimos em frente porque a cor não é o mais importante agora.

 

O que está em jogo – e, por isso, houve tantas reações à declaração – é o risco do retrocesso no respeito às diferenças. É disso que se trata.

Se meu filho gosta de azul, de futebol e age como um menino tradicional, muda o que na sua vida? E se o filho da vizinha, que é um querido, gosta de casinha e de vestir fantasia de princesa? Muda o quê? E daí?

 

Sabe qual é o problema? É as crianças passarem a olhar para os outros que são diferentes delas com estranheza, feito muitos adultos, em vez de entender que cada um é cada um. O problema é garotos que se vestem de rosa, brincam de boneca e usam “roupas de menina” serem desrespeitados ou agredidos. Ou meninas que se vestem de meninos serem violentadas para aprenderem “a se comportar”. Isso sim é grave.

 

Tem mais: como ficam as famílias das crianças que não agem dentro dos padrões tradicionais? Como ficam as famílias das crianças que insistem que não são o que o sexo biológico determina? Como farão as escolas para lidar com as crianças diferentes que podem voltar a ficar amedrontadas?

 

Rosa ou azul, as escolhas dos outros não nos dizem respeito. Nem deveriam a nenhum governo. Não nos cabe pressionar para que ninguém seja diferente do que é. Entender isso é ser capaz de olhar para o outro com respeito e com empatia. Quanto mais humanos formos, melhores seremos. Sem metáforas ou brincadeiras de mau gosto que dão aval para muita gente voltar no tempo e podem causar um estrago e tanto.

 

* O vídeo de hoje é bem diferente de todos os de 2018. Porque, afinal, a gente cansa de pregar no deserto.