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TikTok, Instagram, Youtube, Fortinite e WhatsApp devem ter me rendido uns cabelos brancos e, com certeza, rugas. Um pouco de rabugice também. Nem botox resolve. Eu queria ser um exemplo admirável de mãe nesse aspecto. Daquelas que um dia fui – fui! – e que conseguem controlar bem o uso ou conseguem impedir o acesso e ainda tiveram parto natural sem anestesia. Mas eu falho. Pior: preciso confessar que tenho tido a sensação constante de que estou perdendo.

Já falei disso em análise e preciso retomar.

Pensando bem, a maternidade faz isso com a gente. Vira e mexe você se dá conta de que não tem controle sobre todas as coisas, como gostaria. Além do mais, a gente vive num tempo bem diferente daquele em que fomos criadas. 

 

Quem nunca ouviu falar que os criadores das redes não permitem que os próprios filhos usem? Quem nunca ouviu ou leu pesquisa mostrando que a exposição a elas intensifica o sofrimento e contribui para depressão? Quem mesmo nunca sentiu uma decepção ou tristeza ao se dar conta de que tem uma vida meio ordinária ao contemplar “a vida perfeita” dos outros nas redes?

Estava lendo a história que viralizou da Fernanda Kanner, médica, que decidiu cancelar a conta da filha de 14 anos que tinha quase 2 milhões de seguidores no Tiktok. Fiquei admirada, admito. Mas, na hora, pensei: uma decisão dessa natureza e magnitude tem de ter a convergência entre pai e mãe. Ou, entre os adultos que criam e educam. Se a decisão não for unânime, não funciona. Pior: a mulher vai ser taxada de louca e exagerada diante dos filhos. 

 

Eu sou mãe chata. Sempre fui. Mais que umas, menos que outras. Sei que pra educar, pra por limites, é assim que tem de ser. Mas conheço inúmeros casos de mães que, como eu, não conseguem impor o limite que gostariam porque o pai não enxerga as coisas do mesmo jeito. Aqui em casa é assim. Ele acha que eu exagero! E eu considero que ele libera demais. 

Mas tem uns dois meses, talvez, que eu me dei conta de que estava prestes a enlouquecer. Foi quando cedi o controle da exposição às telas aqui em casa. A missão foi transferida pro pai, numa estratégia pensada e proposta pela minha mãe, psicóloga e psicanalista, que me viu num nível quase insano de estresse e de policiamento. É, porque se você quer estabelecer sozinha um controle rígido, vira polícia, cão de guarda. Quase tem um troço!

 

“Filha, esse não é o caminho. Você vai criar um problema muito maior porque vai perder a conexão com ele, vai criar uma revolta. A geração dele está conectada. Pra tirar isso, tem de entrar alguma coisa no lugar!”, ouvi algo assim da minha mãe. Entendi, mas senti raiva da situação. Como assim tem de colocar outra coisa no lugar? É só uma criança, não é viciado, pensei. Tem Netflix, tem televisão, programa esportivo, conversar com os avós, com os pais, olhar pro teto, brincar de bola, fazer nada… Desenha!

Detalhe: meu filho não fica confinado só nas telas. Ele brinca, faz futebol, faz muita coisa fora de casa.

Antes da pandemia, eu conseguia administrar melhor o controle e os acessos, apesar do cansaço que é. Faz parte da missão. Mas, aí, juntou a peste do vírus, a pré-adolescência e ‘otras cositas más’. Sabe o que estava acontecendo? Mesmo com as flexibilizações, eu já pisava em casa perguntando: “Tem quantas horas aí? Já passou de três?! Socorro. Desliga! Sai do game e sai do Youtube, vai pra Netflix! Isso emburrece, dá problema! Vai conversar com os seus avós!” Ou seja, entrava surtando. Foi fácil reconhecer que não estava dando certo. 

 

Dia desses, me vi invejando o Marcos Mion que proíbe o acesso dos filhos às redes. Eu queria ter conseguido mais, mas não consigo. Não é por não saber do mal que causa, é porque não há convergência de perspectivas aqui em casa e, sobretudo, porque a nossa vida não é igual à dele e não temos o mesmo tempo à disposição das crianças. E olha que, ainda assim, somos muito privilegiados.

 

Pois, prestes a enlouquecer, troquei a taquicardia e o estresse pela frustração. Infelizmente, sinto tristeza de não estar conseguindo, neste momento, limitar o acesso às redes como um dia fiz, impedir como gostaria ou passar um pente fino. Ao mesmo tempo, continuo na luta para que meu filho de 12 anos deixe de usar o celular como se fosse um prolongamento do corpo e aprenda valores e limites ao se colocar na rede. Se alguém souber de excesso ou risco pra ele, me avisa aí, porque eu não consigo ver tudo. Da série mães amigas.

 

A gente tem informação e é por isso que é fácil admirar as mães que conseguem cortar pela raiz. Mas, sabe de uma coisa? Depois de ler a história da tiktoker, me veio uma questão, fruto de um trauma da minha adolescência. Eu tinha exatos 14 anos quando meu pai decidiu me mudar de escola. Na época, ele disse que não tinha dinheiro pra pagar. Mas sempre foi muito mais forte a convicção de que eu não perderia se mudasse para uma outra. Na cabeça dele, aliás, a mudança ia me fazer bem. Não foi isso que aconteceu, infelizmente. A saída da escola que eu amava, onde eu estudava desde os cinco e onde já tinha criado inúmeros vínculos, me causou um buraco no peito, que nem a separação dos meus pais se compara. Aliás, a separação deles foi tranquilíssima na minha vida, graças a Deus. 

Ou seja, mesmo que pai e mãe sejam firmes, convergentes, e acreditem que estão fazendo o melhor, há decisões que podem causar feridas enormes. Por pior que sejam as redes sociais, cortar totalmente o que conecta os nossos filhos à geração deles, talvez, não seja o melhor caminho…

O que dirão os especialistas, hein? 

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, que já foi @maesemreceita, no Instagram. Vem, gente!