“Dá um trabalho danado acreditar que a gente pode tudo, sem realmente poder.” Assim, entre aspas, porque foi esse trecho do texto que publiquei no blog no Dia das Mulheres que fez um leitor se indignar. Depois da crítica, ele emendou: “Não pode por quê? Tem muito mimimi aí.”

 

Antes fosse. A morte da vereadora carioca e defensora dos direitos humanos Marielle Franco é uma explicação completa pra quem ainda não entendeu. Infelizmente! Só que muito pior do que qualquer um poderia imaginar.

 

Se realmente nós pudéssemos tudo, Marielle não teria sido executada! Porque o recado do homicídio foi: “não ouse defender os direitos humanos, as mulheres negras e os moradores de favelas”, como traduziu Frei Beto. E mais: não ouse denunciar a violência policial. Mesmo estando no poder.

 

Marielle era do tipo que conhecia bem todos os obstáculos que uma mulher pode encontrar. Negra, pobre, nascida em favela, mãe aos 19, bissexual. Venceu graças às oportunidades de estudo, à coragem e à força que sempre teve. Como ela mesma escreveu na dissertação de mestrado sobre as UPPs, “favelada, para subir na vida, além de pegar o elevador, tem que se esforçar muito.” Ela chegou lá.

 

A trajetória de luta, a coragem para defender causas importantes e a singularidade de Marielle fazem o assassinato ser ainda mais revoltante. Justo num momento em que nos faltam bons exemplos na política, em que faltam mulheres em quem votar, em que as minorias, os excluídos e as mulheres negras e pobres buscam saídas para aumentar a sua voz. É muito, muito triste.

 

Surpreendentemente, a filha dela, Luyara Santos, de 19 anos, revelou que é tão forte quanto a mãe. Depois do assassinato, a menina escreveu: “seremos resistência porque você foi luta!” Perdi o ar.

 

Quando alguém tem algo a dizer e é capaz de deixar registrado, a gente precisa saber ouvir, ser capaz de se “colocar” no lugar do outro – ou, pelo menos, tentar – e pensar no que cada um pode fazer para avançar na luta, importante pra todos nós. Como ensino aos meus filhos, se não pode ajudar, pelo menos, não atrapalhe.

 

Marielle sempre fez o que acreditava poder. Agora, não pode mais. Mas ela vive. Como destacou o movimento Conectas Direitos Humanos, no país campeão de mortes de defensores e defensoras dos direitos humanos, “que a força de Marielle seja inspiração”.

 

Destemidos em maior ou menor grau, os que não aceitam esses crimes, abominam a injustiça e têm birra da redução de qualquer discurso à uma crítica simplista de que é tudo “mimimi”, estamos juntos (as). Somos todos (as) Marielle sim, Frei Beto.

#Marielle? Presente!

 

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