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Tenho lido que armas não matam. Uai?! É só ler os jornais pra ver que mata. E muito. Arma de fogo, por exemplo, mata mais que arma branca. Ódio também mata. Mas pra violência chegar ao ponto de acabar com vidas, há uma combinação de fatores.

 

Falta de amor, desestruturação familiar, traumas não superados, incapacidade de expressar sentimentos, frustrações em série, bullying, exposição à violência, maus estímulos virtuais, falta de boas referências, pobreza, muitas vezes, falta de perspectiva… Falta de fé. Nenhum sozinho. Nenhum, obrigatoriamente.

 

Esses são alguns exemplos de fatores que, combinados, podem levar alguém a querer sair por aí armado fazendo o maior número de vítimas num atentado contra a vida. Não precisa ser um especialista ou estudioso das motivações humanas. Basta ler o perfil de atiradores pra entender a complexidade dos casos, a complexidade das pessoas.

 

Eu faço parte de uma geração que está se movendo para educar de forma positiva, com afeto e consciência do nosso papel e da diferença que podemos fazer. Estamos nos reinventando para sermos pais melhores, pra criamos pessoas mais humanas, amorosas, capazes de fazerem o bem. Sem violência. Mas isso não quer dizer pessoas livres de frustrações. Trabalhamos a nossa resiliência e a capacidade de superar dificuldades e queremos ensinar isso para os nossos filhos. Esse é um caminho fundamental. Mas, cá entre nós, quantos milhões de brasileiros têm condições de gozar do bem estar que a educação positiva oferece?

 

Há crianças e jovens que não conhecem o amor. Ou que, mesmo quando conhecem, se perdem por inúmeros motivos. Felizmente, poucos se transformam em figuras repugnantes. Mas o potencial de estrago que eles causam é gigantesco. O massacre da escola em Suzano, por exemplo, deixará marcas e dores que vão levar tempo pra serem superadas. Nas famílias atingidas, na comunidade e até em quem acompanha de longe. Isso acontece em qualquer lugar onde vidas são perdidas por causa do ódio, como aconteceu na mesquita em Nova Zelândia.

 

“O mundo está perdido. O Brasil está perdido. Só Deus para nos salvar!”, muitos dizem. Eu também me sinto assim, muitas vezes. Mas o que cabe a nós, como sociedade formada por pessoas equilibradas e desequilibradas? Armar professores? Merendeiras? Funcionários de escola? Padres? Pastores? Eu e você?

 

E dentro de casa? Vamos armar pai, mãe e até a babá que, na ausência dos donos da casa, poderá defender as crianças? Onde chegaremos com a essa crença de que se armar, mais e mais, é o caminho? Será que nós – cidadãos do bem – seríamos mesmo capazes de manter a calma, no meio do desespero e do caos? Eu fico pensando: se a gente mal consegue acertar um dardo no centro do painel numa brincadeira com as crianças, qual a chance de acertar um tiro no alvo, durante um ataque? O resultado pode é ser pior.

 

Enquanto a gente trabalha para criar filhos equilibrados estamos nos perdendo na desconfiança generalizada, no medo constante da guerra, de ataques. Dentro de casa, nas igrejas, nas escolas… Estamos nos perdendo na ideia de que armar a população é o caminho. Que desespero! Aumentar o número de civis armados – como se o que já tivéssemos de arma fosse pouco – acreditando que a violência seria menor é um equívoco, dizem os estudiosos. Os especialistas e as estatísticas estão aí pra comprovar. Cidadão não sabe lidar com arma. Nem deveria ter de aprender.

 

O estado tem de ser capaz de garantir a nossa segurança desde o princípio. Com planejamento familiar, pra evitar que milhares nasçam e cresçam sem perspectiva alguma e sem amor, com educação e serviços públicos de saúde de qualidade, com profissionais qualificados e bem remunerados que ensinem sim sobre prevenção da gravidez, sobre saúde mental, além de programas sociais capazes de tirar famílias da linha de pobreza e jovens da criminalidade. Enquanto isso não acontece, que tal a gente parar de estimular a violência com declarações e imagens que façam parecer que atirar é bacana? A gente limita os jogos violentos em casa. E os governos fazem o que têm de fazer.