foto: acervo pessoal, @prisemreceita

 

“A sensação que eu tenho é de que eu não estou dando conta, estou falhando. Não estou conseguindo render 100%. Ontem, tive uma crise de choro”.

Ouvi esse desabafo frustrado de uma amiga repórter, nos poucos minutos em que dividimos a mesa – mantendo distância uma da outra, no restaurante do trabalho. Foi uma breve pausa numa rotina maçante. Pouco depois dali faríamos, cada uma na sua casa, a versão professorinha. Peso pesado na quarentena.

 

Os relatos das mães nesse período são tragicômicos:

“Estou à beira de um ataque de nervos com as aulas online e tudo mais que preciso fazer…”; “Esqueci a panela vazia no fogo ligado. Ia jogar o azeite e alguém me gritou…”; “Essa semana fiquei péssima e ela só tem 5 anos!”; “Tô surtando real”; “Estou à beira de um infarto!”; “Dá vontade de sair pelada gritando na rua…”; “Não estou dando conta, é roupa que coloco na máquina e esqueço, é o alho que queima porque fui olhar uma atividade…”; “Estou explodindo gritos com o meu caçula, coitado!”; “Basta, só quero que cancelem o ano letivo!”

 

A escola dentro de casa tem sido uma sobrecarga extra na pandemia. É claro que há coisas muito mais sérias ao nosso redor. Mas não deixa de ser uma prova quase diária de resistência!

Não bastasse o drama que tem sido acompanhar as atividades escolares dos filhos (já descobri que vigiar, fiscalizar ou supervisionar são péssimas palavras, que nos engessam num lugar de fiscal, de polícia dos filhos-alunos), estamos diante de um novo capítulo: quem vai ter coragem de mandar as crianças para escola, uma vez que os casos do novo coronavírus ainda não estão sob controle no país?

Se formos considerar só as nossas limitações e o cansaço extremo, vamos querer mandá-las de volta amanhã mesmo! Mas quando a gente pensa no impacto e no risco que o retorno pode ter, aí, é diferente. Quem já pegou o vírus e está imune neste momento fica mais tranquilo. O problema é que, na vida em sociedade, não dá pra pensar só em si e no próprio umbigo.

 

Na escola dos meus filhos, aqui no Rio, o retorno já está sendo discutido. Um comitê médico e sanitário formado por especialistas discute há semanas como será esse retorno e quando vai acontecer. Nas reuniões virtuais se fala em voltar a partir de agosto.

 

Seria assim: algumas séries, com revezamento de alunos e sem o turno completo de aulas, em um formato híbrido em que a criança vai em alguns dias pra escola, fica um pouco e volta pra casa pra complementar as atividades no ambiente virtual. Parece ser uma saída interessante, capaz de manter certo distanciamento. Mas só vale para crianças maiores, obviamente.

 

Já pensou em como será tentar impedir que os pequenos queiram se abraçar para matar a saudade, depois de tanto tempo? Bom, já tem estudo mostrando que crianças pequenas transmitem muito menos o vírus do que as maiores. Mas é tudo muito novo. Por isso, escola e famílias já se perguntam: seria um retorno responsável?

 

A verdade é que a primeira onda da pandemia no Brasil está durando muito mais tempo do que em países onde o novo coronavírus chegou antes. Também pudera, vivemos desde o começo uma quarentena à brasileira, estilo carpe diem. Agora, estamos num beco quase sem saída.

 

De tanto me frustrar com a extensão dessa primeira onda, parei de projetar o retorno das crianças à escola. Por outro lado, me vejo exausta com frequência. Cansada das atividades fofas, mas que me fazem achar que todo dia parte da casa vai parecer um ateliê; cansada dos exercícios que me fazem enfrentar um desgaste reincidente com o “não estou entendendo”; cansada de ter que traduzir textualmente os videos das aulas de inglês, que antes da pandemia ela compreendia — e contra as minhas convicções de ex-professora.

 

Mãe professorinha, mãe meio alfabetizadora, mãe meio tradutora, mãe matemática, mãe… cansada! Que saudade daquela versão de mãe que só acompanhava as lições e podia curtir os filhos amados quando estávamos todos em casa. E olha que por aqui o pai é pai. Se interessa, participa, acompanha, cobra e assume atividades mesmo chegando tarde, principalmente, quando digo que não dou conta.

 

Ainda assim, continuo buscando saídas criativas, mentais e físicas, sem receita, pra completar essa maratona sem fim. Estratégias pra conseguírmos atravessar a pandemia sem grandes traumas.

Um exemplo do que aprendi nesses três meses? Quando as coisas começam a ficar muito tensas, eu levanto acampamento. Paro tudo! Explico que não estou conseguindo ajudar, que aquilo está me fazendo muito mal e saio… Quando a criança estiver mais tranquila ou mais interessada, se quiser me chamar, pode ser que eu ainda tenha alguma disposição e tempo. Muitas vezes, tenho. Noutras, não. Aí, acabamos deixando pra lá ou o pai ajuda.

 

Se a atividade do dia será feita como a escola propõe, isso já deixou de ser o mais importante. Pelo menos com a filha caçula, que ainda depende muito de nós. Se der pra recuperar num dia mais tranquilo, bem. Se não der, amém.

Costuma andar melhor quando aliviamos a pressão. A sanidade mental tem sido a escolha fundamental e inegociável. O outro caminho seria acumular episódios de crise nervosa. E sabe-se lá por quanto tempo… Socorro!

 

*Vem pro @prisemreceita, no Instagram. Vem, gente!