O ano? 1948.

Ele só tinha 8.

Era um menino franzino, de saúde frágil. Mas tinha um talento que brotou já nas primeiras notas musicais. Daqueles que arrebatam corações e despertam fascínio. Foram poucos meses de prática, até o garoto prodígio começar a vencer concursos.

 

Depois da primeira vitória, um jornalista perguntou: “O que você acha de tocar piano?” Do alto do seu provável um metro e 40 cm à época e da facilidade com que dominava as notas no piano, ele disparou: “Ou é fácil ou é impossível!”

 

Ah, essas crianças que sabem dizer aquilo que, nós adultos, custamos a encontrar palavras pra definir. Fácil. Pra quem aprendia e tocava como ele, só podia ser.  Impossível. Pra todas as outras pessoas que não conseguiam. Simples assim.

 

“Nunca mais repita essa frase!”, ouviu do pai. Depois da repreensão, a explicação: “Quantas pessoas gostariam de tocar piano? Você recebeu o dom de Deus!”

 

Se talento é fundamental pra tornar alguém genial num ofício, a determinação também é. Pois ele sempre teve os dois. Juntos, essas duas qualidades exerceram um fascínio sobre aquele menino que cresceu e se transformou num dos maiores pianistas do século XX. Aos 20 anos, lotou casas de espetáculos em vários países e conquistou a crítica mais feroz.

 

Era só um jovem, apaixonado por música, que se constituiu na relação com o piano e superou a timidez no palco. Por isso, quando teve uma lesão que o impediu de tocar, ele se perdeu. “Eu não podia ouvir música clássica! Eu tinha raiva!”

 

Claro. Perder o piano era como perder as próprias referências. Aquelas que todos nós temos e que fazem parte da construção da nossa identidade, da nossa personalidade. Algo que a gente não saberia viver sem.

 

Pra se recuperar e se reencontrar, ele lutou muito. Se sobrou obstinação, faltou ponderação. “Se eu tivesse tido maturidade depois do primeiro acidente, aos 26 anos, poderia ter começado a regência já naquela época. Eu não teria perdido os movimentos. Eu não tenho dúvidas de que eu destruí a minha mão!”

 

Se…

Ah, o se.

Tudo poderia ter sido diferente.

Se…

 

No caminho de luta e da busca por ele mesmo, fez concertos em vários países só com a mão esquerda! Foi ao limite. Só parou quando o mão não respondeu mais.

 

Poderia ter sido o fim da carreira, mas ele conseguiu ir além. Aos 63, João Carlos Martins descobriu que “poderia continuar na música”. Como maestro. Um novo mundo se abriu. Hoje, aos 77, ele ainda faz uma média de 200 concertos por ano.

 

Essa história linda está no filme “João, O Maestro”, do diretor Mauro Lima. Você precisa ver! É uma vida de amor, de paixão e de superação, trilhada pela música. Eu tive o prazer de conhecer um pouco dessa história pessoalmente, na entrevista emocionante que ele deu à TV Brasil.

Assista, ouça. E inspire-se. Música, maestro!