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Meu aniversário ainda está longe, mas ando fazendo balanços e tenho percebido que ando mais exigente e com nenhuma disposição para deixar pra lá o que me faz mal. Não é só porque a gente amadurece e se cansa de uma série de coisas com o passar do tempo. A minha mudança é fruto de anos de análise, esse investimento que costumo dizer que vale mais do que comprar títulos do tesouro.

 

Depois de anos no divã, finalmente, deixei de ser anta. Não que eu fosse uma boba ou algo do tipo. Aliás, nunca fui, principalmente, com quem tenho intimidade. E isso é muito resultado do que absorvi da minha mãe, uma mulher forte, determinada, transparente e corajosa. Mãe costuma ser exemplo até sem fazer esforço pra isso.

 

Mas, no fundo no fundo, eu também já fui aquele tipo de pessoa que evitava reclamar ou demostrar insatisfação pra não se indispor com alguém ou só pra não causar desconforto. Também já tive mais dificuldade para endereçar problemas a quem deve se responsabilizar por eles. Só que ao poupar o outro de uma eventual chateação ou incomodo, sou eu quem me dou mal. Isso eu entendi de forma definitiva.A minha transformação tem me feito engolir menos sapos e com finesse. Não saio por aí atacando, mas também não fico mais calada quando sou prejudicada.

 

Vou contar um caso simbólico, que foi assunto de análise. Anos atrás, perto de ter a minha segunda filha, encomendei uns enfeites feitos à mão pra cortina da cabana da cama do meu filho. Quando fui buscar no ateliê, voltei pra casa com um buraco no peito. Na hora que vi,  fiquei indignada com a feiúra. Desenhos mal feitos, mal acabados, pequenos pro tecido das cortinas e mal colados com cola quente, em vez de costurados. Só que eu fiquei completamente sem reação. Paguei os enfeites e saí feito pinto no lixo. Fui ou não fui uma anta na hora? Justo eu, sempre tão argumentadora.

 

De tão abalada, nem dormi direito! Fiquei indignada, só que mais indignada ainda com a minha falta de coragem para reagir. Que raiva de mim! No dia seguinte, inconformada com o meu próprio silêncio, voltei. “Desculpe, mas eu precisava vir. Nem dormi direito, transtornada porque saí daqui assustada com as peças que recebi e não tive coragem de falar na hora.” Mostrei item por item. A dona do ateliê fingiu que não tinha percebido o horror, mas me ouviu, disse que fiz bem em voltar e, dias depois, me entregou tudo novo. Com uma fala, sem grosseria, resolvi. Ficou a lição.

Por que é tão difícil falar?

 

Obviamente, esse não foi o único episódio em que fui anta. Tenho histórias muito mais complexas e delicadas que envolvem todo tipo de relação e não cabe revelar. Afinal, a gente repete a forma como funciona, mesmo sem querer. Haja análise! Trabalhando muito no divã, descobri as razões inconscientes que me faziam ter dificuldades de ser dura, firme e de me posicionar, principalmente, com as pessoas com quem não tenho tanta intimidade. Basicamente, eu travava, mas sempre para não dizer algo que a pessoa não fosse gostar. Como se eu não pudesse desagradar.

 

Até que um dia eu me dei conta de que era eu quem não queria mais ficar mal sem poder falar sobre algo que alguém fez e me prejudicou. Poupo o outro e me ferro engolindo sapo? Não mais. Eu diria que estou praticamente curada, mas vira e mexe tenho que revisitar essa capacidade conquistada de saber falar com firmeza e educação, pra me posicionar.

 

Outro dia mesmo, um cabelereiro resolveu fazer alguma coisa errada na mistura de tinta que uso há 10 anos. Há 10 anos. Não tem receita para um tanto de coisa na vida, mas, pra mesma tinta, com a mesma mistura e na mesma cabeça, o resultado é garantido. Ele errou e eu, reclamei. Só que o cabelereiro não aceitou. Não podia ir embora muda. Então, falei no caixa: “Olha, sinto muito, não entendo de química, mas entendo de resultado. Alguma coisa ele fez diferente. E eu vou precisar que alguém conserte na semana que vem, mas não vou pagar duas vezes.”

Como faz bem ser capaz de falar.

 

Ontem, aconteceu mais um episódio. Somos testados nas pequenas coisas. Desta vez, tive que sair do salão caminhando descalça, descendo escada rolante e pisando em cimento de estacionamento, depois de passar mais de três horas e meia lá dentro. Tudo porque deixei o pé pro final e a pedicure não me avisou – ao me ver tirar o scarpin pra fazer a unha – que os chinelos descartáveis tinham acabado. Custava me perguntar se eu tinha levado chinelo antes de fazer o pé e pintar as unhas? Sem condições de esperar mais uns 40 minutos até secar, fui-me. Mas me posicionei, só que por mensagem de WhatsApp. Podia ter dito na hora.

 

A cada vez que falo e que deixo de ser a anta que um dia fui, me sinto melhor. Tem um efeito físico, para além do psicológico. Tira o nó do peito, dá um alívio.

 

Moral da história: depois de anos de análise, finalmente, tô mais esperta, deixei de ser anta, já não engulo sapo com um dia engoli e ando melhor quando vejo que tenho sido capaz de endereçar as coisas pra quem tem responsabilidade. Só tem um problema: ainda pago o pato, infelizmente, em muitas situações. A boa notícia é que, com análise, a gente encontra saídas para um tanto de coisa. Continuo trabalhando. Só que, agora, no divã online.

 

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