Foto: Pixabay 


Eu estava lendo a Tati Bernardi (me divirto! – “Foi mal, psicanálise”) na Folha (porque a gente lê o Estadão e a Folha) e decidi escrever. Ela estava falando do drama de não conseguir abrir mão de dormir com a filha pequena na mesma cama. Brincou que não saiba de todas as consequências que essa permanência da criança na cama dos pais cause. Tirando onda (ela pode e eu ri!), pediu perdão pra psicanálise porque sabe que está no caminho equivocado.

Pois bem, eu já fui totalmente pro lado contrário. Não por opção racional. Afinal, a forma como cada uma de nós consegue fazer os cortes dos cordões umbilicais e as separações na relação com os filhos diz muito sobre a nossa constituição individual, sobre a forma como a gente funciona, sobre como se relacionou com os nossos pais e, principalmente, com as nossas mães.

Na minha análise, uma das questões que eu tive que trabalhar ao longo de muitos anos foi a minha disciplina. Filha de pais ex-atletas, sempre fui muito disciplinada na vida e era também na maternidade. Às vezes, em excesso. Mas eu não sabia, claro. Eu achava que era o jeito “certo“ de ser.

Desde que saiu da maternidade, Rafael sempre dormiu na cama dele. Gabi também. Lembro de ter lido livros, inclusive que ganhei do meu marido, que estimulavam que o bebê deveria dormir na própria cama, desde sempre. Em noites mais difíceis, eu, na minha disciplina, era irredutível. Passava a madrugada sentada dormindo na cadeira de amamentação e na cama auxiliar, se precisasse, mas não levava pro nosso quarto. Sempre temi que uma escapada pudesse atrapalhar tudo que já tinha sido conquistado.

 

A mesma disciplina atuou quando parei de amamentar durante a madrugada. Rafael tinha três meses e, numa noite, dormiu da meia-noite às seis da manhã sem acordar. Era dia da consulta no pediatra que a gente ama e que meu marido escolheu. Chegando lá, ele disse: “Agora, ele já demonstrou que não precisa mais mamar de madrugada. Melhor você não oferecer o peito e deixar com o pai pra ele não sentir seu cheiro, porque isso vai estimular o sono e é importante tanto para mãe quanto para criança, que vai aprender a dormir!”

Dito e feito. Virei uma soldada na disciplina. Mas, na mesma madrugada, o menino acordou. E meu marido não aceitava que eu não desse de mamar porque o bebê chorava.

Naquela noite, 12 anos atrás, a gente discutiu tanto (sabemos que não devemos fazer isso na frente das crianças, nem dos bebês, mas somos humanos) que, depois de duas horas divergindo, eu decidi rasgar a disciplina e dar o peito pro menino. Mas foi exatamente quando ele dormiu! Estava exausto, tadinho. Nunca mais aconteceu. Na seguinte, o pai ninou e ele dormiu. Desde muito pequeno, Rafael passou a dormir a noite toda. O pediatra acertou!

 

Uns anos atrás, depois de muita análise e falando do abandono da minha rigidez, meu marido dizia: “Viu só, na época que eu defendia isso você achava que era coisa de banana!”

Independentemente das questões que envolvem as nossas divergências e diferenças, o fato é que, seja como for, a maternidade costuma provocar transformações que, antes dos filhos, a gente nunca imaginou que seriam necessárias.

 

Até ser mãe, a minha disciplina só tinha me ajudado. Pra crescer, pra ficar independente, pra me tornar uma profissional, pra comprar o primeiro carro e até pra tomar ácido fólico meses antes de engravidar. Aí, meu filho fez dois anos. E a maré virou. Costuma ser nessa fase que a gente começa a se dar conta de que o nosso jeito de ser e de funcionar pode não ser suficiente e, talvez, precise ser alterado para o bem da relação com os filhos.

Quando você começa a trabalhar (em análise, como eu e a Tati), você descobre que as saídas que precisa encontrar não vão ajudar apenas a resolver uma questão específica com o filho. Aos poucos, elas te transformam e fazem com que a sua vida pessoal mude e fique melhor.

 

A disciplina que eu tinha e que nunca me permitiu levar as crianças pequenas pra cama, já não é mais como antes. Na maternidade, a minha rigidez, ao contrário do que eu esperava, só fazia as coisas escaparem na relação com meu filho mais velho. Eu precisava e desejava deixar de ser tão certinha com algumas coisas e trabalhei muito no divã pra isso.

Mas, na divisão da cama, eles cresceram dormindo nos próprios quartos e eu acho ótimo. Me alegra vê-los dormindo bem, felizes, sozinhos. Acho chique até (risos). E não durmo com criança porque amo dormir sem pernada, mãozada ou pesada na cara. Uma noite inteira de sono, pra mim, vale mais do que Häagen Dazs. 

 

Moral da história: às vezes, a gente busca apoio psicológico profissional pra superar desafios que aparecem na maternidade. Mas quando a gente está ali trabalhando de verdade, a gente encontra saídas que antes de fazerem bem para os filhos, fazem bem pra nós mesmas. Porque, afinal, antes de ser mãe, a gente é pessoa. Tem o direito e o dever de querer estabelecer limites pra não ser atropelada. Isso eu aprendi com a minha mãe. E mesmo depois de desconstruí-la na minha análise, esse é um dos muitos aprendizados que quero manter.

 

*Vem pro @prisemreceita. Vem, gente!