Nunca diga nunca! É a sentença mais verdadeira para a maternidade.

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Desde que decidi grávida que não ia oferecer chupeta (bico) de jeito nenhum para o meu primeiro filho e, depois, me arrependi amargamente, arrisco dizer que a minha maternidade tem sido quase um movimento de questionamentos, reavaliações e mudanças. Antes de ser mãe, eu era uma. Quase 13 anos depois, sou outra versão de mim mesma.

Sim, tem princípios que são imutáveis e dos quais não abro mão. Mas pra tudo que não é princípio, eu percebo que estou sempre reavaliando, buscando um novo olhar, uma nova forma de ser. Se precisar, reavalio de novo e volto atrás. 

 

Pois, desde ontem, ando pensando infinitamente pra responder às seguintes perguntas: “Como foi que as coisas chegaram nesse ponto?”; “Onde foi que as coisas se ‘perderam’ (entre aspas)?”; “Como é que eu deixei?”. Talvez, essa última seja a mais adequada agora. 

Eu, que sempre fui muito certinha, disciplinada e preocupada com a opinião alheia por boa parte da vida, nunca quis fazer tatuagem, nem pintar cabelo (exceto pra esconder os brancos), nem fazer piercing. Preciso confessar – e estou gostando dessa provocação que os meus filhos estão me causando – que sempre questionei pais e crianças que tinham cabelo colorido ou corte radical, piercing e tatuagem pelo corpo afora.

 

Na minha visão (até esses dias), tudo isso aí era resultado de uma falta de controle e da permissividade do pais, que deixavam crianças meio descompensadas. Também achava uma coisa horrorosa, brega, cafona, gringe (diríamos agora)! Bom, isso ainda acho. Mas pensava que o estilo, talvez, fosse fruto de más influências. O fim dos tempos, pra consolidar a avaliação. 

Aí, a realidade veio como um raio para aniquilar o pensamento tradicional e quadrado do “isso eu não deixo meus filhos fazerem de jeito nenhum!”. E toda a minha moralidade construída consciente e inconscientemente ao longo de quatro décadas foi destruída junto com o que restava do “o que os outros vão pensar?”. Guenta coração!

 

Meus filhos, as pessoas que eu mais amo nesse mundo, agora, se tornaram visualmente parte de tudo aquilo que eu depreciava. Deixei. Fui vencida, eu diria. Mas não sem avaliar os poréns. 

Primeiro, deixei porque eles insistiram ao longo de muitos – muitos mesmo! – meses. Aliás, se precisar conhecer crianças perseverantes e argumentadoras, te apresento os meus dois. Depois, porque eles ainda tinham o dinheiro que ganharam em outubro da avó de Dia das Crianças e tiveram a coragem de investir nisso. Quem tem filhos sabe que dinheiro de pai e mãe não vale nada pra maior parte deles. Mas a semanada e o dinheiro que ganham de presente vale ouro. Custam a gastar!

 

Pois, se eles decidiram gastar todos os centavos que tinham pra pintar cada um o cabelo de azul e de platinado – ai, meodeos – é porque o negócio era importante, tinha valor. “Filho, vai ficar feito menino de favela?!” Olha o preconceito velado da mãe. Tomei um: “Não é de favela!”

Nisso ele tem razão. Tá nos morros, mas também nas redes sociais, na Netflix e até em filme da Disney. Aliás, até na minha casa. E na vizinhança, pelo menos por aqui no Rio. Por falar nisso, lembro que aprendi cedo o “diga-me com quem andas e direi quem és”. Mas os meninos e meninas que estão com os cabelos pintados na escola e onde moro não são maus elementos. 

 

Não posso falar pelos pais deles, mas admito que o fato de muita criança de pais amorosos e atenciosos estarem pintando o cabelo foi um elemento que me fez ceder. Se fosse droga ou qualquer coisa ilegal, não teria conversa. Mas botar tinta? 

Decidi não tentar vencer a insistência dos meus. Aí, você pode pensar o que eu já pensei: se é feio, estraga o cabelo e fica com cara de descontrolado é só dizer não e pronto. Mãe e pai é que decidem!, ora.

 

Mas será que vale o desgaste num tempo em que a gente é estimulado a entender que cada um é cada um, que os filhos não serão como a gente idealiza, que eles têm as personalidades deles e os gostos deles? Pra acrescentar, pensei em tudo isso aí: cá estamos nós prestes a mudar de cidade de novo, em apenas dois anos. Eles estão se despedindo dos amigos, com os corações apertados. E muitos têm cabelo colorido. É quase férias. Vão se lembrar disso pra sempre. E vão ficar felizes. Eu acho feio, mas deixa eles! Cabelo cresce! Depois, é só cortar! 

 

Moral da história: tenho dois coloridos em casa que, certamente, estavam mais bonitos antes de pintar o cabelo. Minha filha diz que eu não tenho razão porque ela está “mais bonita agora”. E, como diz a Lu, que está me ajudando em casa esses dias, “ela tá cantando de felicidade!”. 

Eu reconheço que pintar a fez ficar feliz, feito um passarinho. O de 12, que agora parece um jogador do Flamengo, está radiante também. E não são momentos como esse que fazem a vida ficar mais gostosa? 

Já eu me vejo mais flexível, capaz de pensar fora da caixa, de encarar desafios (esses são pequenos, vamos combinar) e de lidar bem com as diferenças. Pensando enquanto escrevo, se eles ficaram felizes com o cabelo colorido, eu também me sinto orgulhosa de mim.

 

*Vem pro @eupriscilladepaula, no Instagram. Vem, gente!