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Tenho no meu pai um porto seguro. Ainda hoje, aos 41, é assim. Graças a Deus, afinal, eu sei que isso é um privilégio. Com ele, ainda divido aflições e alegrias. Choro de tristeza. E de emoção. Peço ajuda, opinião… Pra um tanto de coisa, pode ser grande ou pequena. Vira e mexe acontece. Quer ver?

 

Meu filho cai no futebol, machuca o pé ou o joelho. Não tem pediatra ou amigo ortopedista que substituam o destino da ligação. Sempre ligo pro meu pai! “Faço o que, pai, com o joelho do menino? Ponho gelo ou bolsa de água quente?”

Parece que o meu inconsciente me faz esquecer, só para ter de ligar para ele, porque eu vivo com essa dúvida.

 

Ouví-lo me acalma. Esta semana, fui parar no pronto-socorro de noite com meu filho, que torceu o pé numa disputa de bola no treino de futebol, só porque meu pai disse que era a melhor decisão. Não fosse por ele, teria deixado para resolver no dia seguinte. Pois bem, saímos de lá com o pé engessado. Não quebrou, mas a médica decidiu imobilizar para evitar riscos, por causa da luxação. Saí pensando: “ainda bem que liguei pro meu pai e vim hoje mesmo.”

Cadê o pai da criança?, você pode estar pensando… Estava trabalhando e eu aproveitei que o avô estava livre, pra pedir a opinião dele.

 

Ligo pro meu pai, de São Paulo para BH, pra coisas bem simples também. Por isso, há anos, o plano do celular é ilimitado para DDD da mesma operadora. Telemarketing nenhum me pega com proposta diferente.

 

“Que tipo de óleo combina com meu carro?” “Vou precisar trocar os pneus!” Toda vez que troquei o carro, pedi o opinião. Até para descobrir que iogurte nenhum me faz bem, foi ele quem me ajudou. Foi assim: liguei reclamando que ficava com uma sensação ruim levantando peso na ginástica, mesmo depois de ir ao banheiro. “O que você come antes de malhar?”, ele perguntou. Respondi uma lista de coisas, que se alternavam. E ele cravou: “tira o leite do iogurte.” Batata! Não é que resolveu? Nunca mais comprei o que via na propaganda achando que servia pra mim. Ufa. Foi numa dessas, aliás, que eu descobri que tenho intolerância à carne de porco. Graças a ele.

 

Meu pai também me ajuda em coisas muito mais complexas. Ele e a minha mãe. Mas nós duas já entendemos que não é só o distanciamento e a experiência de vida que fazem com que eles possam ajudar a filha adulta a superar dificuldades. Para algumas coisas, o fato dele ser homem o coloca numa posição de avaliação muito melhor do que a nossa. E não é só porque vivemos numa sociedade machista. Tem coisa de homem que só homem entende. Nem discuto.

 

Meu pai ainda tem uma outra qualidade, essa é mais rara. Ele sabe me fazer rir, mesmo em momentos de desespero. Dia desses liguei chorosa – estou atravessando um deserto – e, no meio da conversa, quando contei uma coisa que me deixou chateada, ele fez: “Ah, tá rindo do meu cabelo!”

Gargalhei. Ah, como é bom rir com o pai.

 

Quando eu era menina, ele não era tão engraçado assim. Aliás, era e não era. Jovem e técnico de futsal, conhecia boa parte dos moços que chamavam a atenção das meninas da minha geração. Fazia questão de fazer graça contando histórias que só atrapalhavam as coisas pro meu lado. Em vez de rir, sofri. (risos)

 

Fui casar, novinha até, com um homem que ele só conheceu depois que eu já tinha sido pedida em casamento. E olha que isso foi no começo do namoro. Conversava muito, para eu me dar o valor e não descuidar da minha reputação. Século 21 e ele é super conservador. Por outro lado, é o moderninho. Bem mais até do que você possa imaginar. Minhas amigas que o digam. Só não me peça para explicar a “contradição”.

 

Eu poderia ficar enumerando uma série de coisas interessantes. Ou revelar discussões, afinal, temos algumas. Mas não vai dar tempo. Então, só falta dizer uma coisa bem importante. Tudo de bom só não ficou destruído porque a gente não conversa sobre política. Desde antes das eleições, porque antes não era assim. Toda vez que tenta, dá atrito.

 

A única coisa que sempre concordamos e que nos deixa igualmente indignados é o nível que a corrupção atingiu. Também entendemos que precisávamos de mudanças. Parou por aí. Ele tem ódio. Eu tenho medo.

 

Não discuto com meu pai se as coisas vão ficar mais difíceis, por exemplo, para índios, pra preservação do meio ambiente e para os direitos humanos. As nossas preocupações são diferentes. Não tem acordo, infelizmente. Mas eu entendi – nós entendemos – que, pra manter o amor e a boa relação que existe entre nós, não vale a pena discutir pontos de vistas tão divergentes.

 

Por em risco uma relação tão nobre por causa do destino do nosso país? Preferi fazer concessões. Preferi cuidar da gente. Todas as vezes que um assunto polêmico aparece, o tempo começa a fechar. Aí, a gente logo se dá conta de que, para preservar todo o resto, é melhor não falar sobre isso.

Não tem pai, nem mãe, nem filho perfeitos. Então, somos felizes com o que temos.

Espero que o seu pai seja ou tenha sido bom pra você também. E que, no lugar de pai, você cumpra bem o seu papel. Feliz Dia dos Pais!

 

*Vem pro @maesemreceita no Instagram. Vem, gente!