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Meu Deus do céu, às vésperas da eleição, como é que faz pra se manter com saúde? Confesso que, pra isso, estou um pouco alheia aos arranca-rabos e provocações nas redes sociais porque sei que, se for me envolver de verdade, vou romper relações até na família. A que ponto chegamos!

 

Filha de pais separados, como diz a minha mãe psicanalista, precisei encontrar uma forma de transitar entre os dois lados. Pra ilustrar bem as diferenças, uma família é evangélica e a outra, católica. Com isso, ganhei e perdi. Mas tive que aprender a ser ponderada e dou muito valor a essa conquista.

 

Levo a vida ponderando, tentando entender os diferentes lados e os porquês das motivações e paixões, para tentar escapar com sabedoria das ameaças, de guerras e de ataques. Até dentro da família, repito.

 

Outro dia, meu filho de 9 anos veio dizer: “A vovó é petista roxa?” Eu quase caí pra trás. “Como assim filho?! De onde veio isso? Sua avó não é petista roxa. Ela votava no PT, como eu, mas conhece bem os equívocos do partido. Aliás, dos partidos, no plural! Mas ela é sim uma mulher de esquerda, que defende direitos iguais, se preocupa muito com os mais pobres. Vai sempre escolher alguém que defenda esse lado, independentemente do partido.” Eu poderia listar inúmeras questões para explicar porque a minha mãe é de esquerda, mas foi suficiente.

 

Já sobre o candidato que lidera as pesquisas, Rafael chegou em casa horrorizado, com uma lista pronta: “Mãe, como pode um homem que não gosta de negro, não aceita homem que namora com homem e diz que vai matar pessoas querer ser presidente?” Detalhe: ele tem um tio gay e se amam.

 

Meu filho ficou preocupado. E olha que ele estuda numa escola católica, de elite, mas, felizmente, esse tipo de crítica circula por lá. Se não, o problema seria muito maior. Convenhamos.

 

“Filho, a situação é terrível!”, tenho dito toda vez que o assunto eleição aparece. É terrível, gente. Estamos rachados.

 

Como jornalista, sei o que deu errado. Inclusive na cobertura da mídia. Sempre busquei análises sem paixões. Nunca nas redes sociais! E não é porque também me frustrei que vou dar uma guinada ao radicalismo declarado. A gente pode discordar de um tanto de coisa, mas querer eliminar as diferenças, daí, já é um excesso. Uma pessoa ponderada não é capaz de fazer essa escolha.

 

Toda vez que entro no Facebook, fico prestes a ter um troço. Sofro junto com quem pensa como eu. E fico horrorizada com as novas descobertas. Quanta gente ra-di-cal! Tão diferente de mim que nem contra Aécio e Andrea Neves desejei o mal. E olha que a irmã dele teve um papel ativo na pior perda da carreira do meu marido. E na minha também, por consequência. Já falei sobre isso aqui, no texto “Alma Leve”, quando ela foi presa flagrada em áudio ao pedir dois milhões em propina. https://emais.estadao.com.br/blogs/mae-sem-receita/alma-leve/

 

Diante da polarização e do ódio de pessoas que querem que muita gente seja “metralhada”, dei sorte de ter sido poupada nos grupos de WhatsApp. #Gratidão com # define. Outro dia uma amiga me disse que estava passando mal de tanto receber mensagens absurdas em grupos de médicos reacionários. Queria sair de todos mas, profissionalmente, não podia. Ai, gente! Que tristeza.

 

É ou não sorte não fazer parte de grupos que compartilham fakenews, botando a cara de apresentadores de TV como âncoras de fatos montados?! Como não vivo numa bolha, é claro que recebi conteúdo falso no privado. Inclusive de gente que amo. Afinal, por que as pessoas distribuem esse tipo de coisa? Preferi não perguntar. Mas fé não combina com má fé.

 

Pra não ficar raivosa nem render o assunto respondi, sem assistir tudo: “Isso é falso, montado! Não existe um candidato defender a Venezuela hoje em dia, ainda mais depois que o presidente do país foi ali na Turquia cuspir na cara dos venezuelanos. Assim como você não vê mais ninguém defender o Aécio. E pedi: por favor, não me mande mais essas coisas. É um absurdo.” Tenho sido respeitada. Amém!

 

A gente fica tão decepcionado no meio da polarização que, independentemente do lado que esteja, tem de se esforçar pra continuar amando, neste momento, quem pensa diferente. Hoje eu sei que sou minoria. Não fiz um post político sequer nas redes sociais. Mas também não consigo me fingir de morta.

 

Faço parte da minoria que acredita que outras pessoas deveriam ter uma chance. Sem radicalismos, sempre. Fora da polarização dos extremos que pode deixar o nosso país num clima de velório pelos próximos quatro anos. Eu queria poder fugir disso! Infelizmente, não vai dar pra fugir. Mas fico intrigada tentando entender como algumas pessoas se constituem de forma tão radical e não conseguem ponderar. Nem que seja só na forma de manifestar opiniões e respeitar as diferenças. Esse legado eu quero deixar para os meus filhos.

 

*Por falar em legado, se tem uma coisa que faz um bem danado na vida é ser filho de gente sensível. Quem puder ver o vídeo de hoje – que não tem nada a ver com política, vai entender do que estou falando.