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Meu marido diz que sou mãe leoa. Na verdade, também sou fofa. Mas, realmente, não vem aprontar com filho meu que viro uma fera. Só que, obviamente, controlo da porta pra fora. Vamos ao recente caso concreto.

Rafael, meu filho que fez 12 anos, chegou urrando de dor em casa anteontem. Estava na quadra com um coleguinha e foi chamado para completar um time de meninos um pouco mais velhos, que “invadiram” o campo. Ele me contou que não queria jogar, mas faltava uma criança pra completar e os meninos pressionaram: “Vai deixar melar o futebol?” Pressionado, ele foi, desconsiderando a orientação que damos de não jogar com crianças mais velhas. Comprovadamente, é um perigo.

Pois, quando ele chegou com o antebraço inchado, aos prantos, me deu desespero.

“Agarra direito!”, foi o que os meninos gritaram depois de colocá-lo no gol e dele perder a primeira defesa. Inacreditável! Meu primeiro sentimento foi de raiva. Depois de explicar para o meu filho que ele precisa saber ouvir (até o coração) para se proteger e evitar sofrimento, deu vontade de sair atrás das crianças dando lição de moral. Como pode um menino chutar forte a ponto de quebrar parte do antebraço de outro? “Mãe, ele tinha brigado antes”, Fefel me contou. Na hora, pensei e falei: “Não queria quebrar seu braço, mas chutou com raiva!”.

Como será a família desse menino? Quem mais pensou?

 

Infelizmente, não posso corrigir a fratura, que o levou a engessar o braço até quase a altura do ombro, mas sabia que precisava escrever pra outra mãe. Não os conheço, mas fui fofa. Compreensiva, eu diria. Afinal, sei que, às vezes, crianças podem agir de forma completamente diferente da educação que recebem em casa. Para desespero de quem educa!

Só que eu também sei que, muitas vezes, a criança reflete comportamentos do ambiente em que vive. Quase sempre, talvez… E isso me traz para o assunto da minha reportagem na TV hoje: abuso do uso de ansiolíticos em crianças.

A incapacidade de pais lidarem com desafios acabam levando muitas famílias a quererem dar remédio para controlar os filhos.

Gravei com um psiquiatra e uma psicóloga que reforçaram o que educadores e especialistas em desenvolvimento infantil sabem: o comportamento de uma criança não necessariamente é causado por um transtorno. Pode ser a prova de que há alguma coisa errada na vida daquela criança.

Só que medicar é mais fácil, né?

 

“Tem pais que querem logo sair do consultório com uma prescrição”, contou o psiquiatra Bruno Pascale. “São comuns as queixas de criança agressiva, criança que não dorme ou tem dificuldades no aprendizado. E a gente consegue ver o que acontece com a criança. Um exemplo: a dificuldade para dormir, às vezes, está ligada à falta de rotina. Ao fato do pai e da mãe ficarem no celular até tarde.”, explicou a psicóloga Gabriela Rodrigues.

A mãe mesmo do menino Henry, que tinha 4 anos – que história escabrosa, não consigo nem entrar nos detalhes! – dava remédios de ansiedade para o menino três vezes ao dia, porque dizia pra funcionária que ele tinha dificuldade para dormir. Também, imagina o horror que era viver com aquela mãe que não o defendia e com o padrasto violento? Quanta crueldade, meu Deus.

“Os pais têm dificuldade de se olhar e de se perceber e pedem medicação pra criança!”, confirmou a psicóloga. Claro que o nível da mãe e do padrasto do Henry é criminoso, mas essa verdade vale para muita gente. O problema é o outro.

 

Eu voltei para análise quando meu filho fez dois anos. Descobri que não tem receita pra maternidade quando entendi que o meu jeito de ser e de funcionar não era o mesmo dele e que eu precisava buscar caminhos para que a educação fluísse, pra que o limite entrasse, pra ele pudesse me ouvir mais e pra que nós pudéssemos ter uma relação saudável, além de trabalhar para ter mais convergência com o pai na educação. E nunca, nunca, pensei em recorrer à medicamentos para fazer um filho totalmente corporal, ativo e bem mais ousado e corajoso do que eu ficar contido. Zen.

Mas tem todo tipo de pai, mãe e de família. Tirando os potencialmente criminosos – misericórdia – até pais amorosos e protetores têm recorrido à medicação para conter ou controlar o comportamento dos filhos. Ninguém nega que há doenças mentais que precisam de medicação pro controle, mas tirando isso, quantos pais são capazes de olhar bem pra si?

Lembrei agora da minha mãe, psicanalista, que diz: “A gente tem que torcer pra não cruzar o caminho de pessoas loucas!” E eu completo: tem que andar com Deus. Porque até quando o braço quebra ou acontece algo ruim, você agradece que não foi pior!

E o Henry, que Deus o tenha, tadinho!

 

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